Existe um tipo de conversa que é muito comum entre uma feminista e um homem, e cujo significado eu só fui entender nessa semana.
(Imagino que esse tipo de conversa seja também muito comum entre negras e negros e brancxs, ou entre LGBT e cis-héteros. Mas por hora falo apenas pela minha experiência do lado oprimido; e provavelmente já fui a pessoa inconveniente do lado opressor. Peço desculpas, e peço que me apontem quando eu cair no erro de novo)
É assim: o moço em questão, muitas vezes bem intencionado (mas às vezes apenas querendo ver o mundo queimar), por saber que você tem algum envolvimento (mesmo que apenas virtual) com o movimento, vem fazer alguma pergunta sobre alguma pauta. Você responde, ele meio que concorda, mas logo joga um caso da vivência dele como contra-argumento e, antes que você perceba, está passando muito tempo ouvindo ele falar dele mesmo, sob risco de ser "uma daquelas radicais que só conversam com o próprio grupinho".
Exemplos:
a)
Cara - Qual a sua opnião sobre o aborto?
Mina - Ele acontece, proíbido ou não. Milhares de mulheres morrem por ano em abortos clandestinos. A descriminalização é uma questão de saúde pública. A mulher tem direito sobre o seu próprio corpo, portanto cabe a nós escolher se queremos ou não levar uma gravidez adiante.
Cara - Concordo que o corpo é seu. Mas eu tenho medo, sabe? Se a mina engravida, eu vou ser pai pra sempre, vou ter que pagar pensão... Acho que também cabe a mim opinar sobre isso, entende? Eu sempre me cuido quando eu transo, mas teve uma vez que...
b)
Cara - Transar com mina bêbada é sempre estupro?
Mina - Transar com alguém que não tem consciência dos seus atos é estupro.
Cara - Acho complicado isso de sempre considerar estupro quando a mina não lembra do que fez. Certo, ninguém vai transar com uma pessoa desacordada, seria absurdo. Mas às vezes as pessoas parecem conscientes, sabe? Eu tenho um amigo que nunca lembra como chegou em casa, mesmo voltando dirigindo. E eu já me senti super usado por menina também. Uma delas...
c)
Cara - Você acha que só mulheres devem falar no feminismo?
Mina - Acho que o protagonismo do movimento é das mulheres. Acho fundamentais que hajam espaços de auto-organização. Acho que cabe aos caras respeitar as minas e dar um toque pros outros caras quando eles não estiverem respeitando as minas.
Cara - Mas eu sempre respeitei as minas. Inclusive, quando um amigo meu é machista, eu sempre aponto. Mas teve uma vez que eu fui falar em uma mesa mista e uma menina disse que eu não sabia o que eu tava falando porque eu sou homem. Eu me senti super mal, sabe?
Todas as conversas acima aconteceram comigo, mas não só comigo. Ouso dizer que, se você é mulher, provavelmente se sentiu desconfortável lendo-as. Se você é homem, provavelmente não entendeu onde estou querendo chegar. Deixa eu explicar, então:
Gato, feminismo não é sobre você.
Eu sei que vivemos num mundo que tem mulheres e homens também. Eu acredito que você é um cara legal na maior parte do tempo, cheio de ideias, e que já passou por situações ruins. O que eu quero que você entenda é que, ao desviar uma conversa sobre feminismo para uma vivência sua você está, mesmo sem querer, silenciando o movimento. Você está dizendo "ok, vocês defendem coisas legais, mas eu sou mais importante, olha pra mim". E, deixa eu te contar uma coisa: silenciamento é uma das coisas contra as quais a gente mais luta.
Então eu só te peço uma coisa: me escuta. Sério. Para por uns minutinhos de pensar em você e escuta o que eu tenho a dizer. Faz um exercíciozinho de empatia. Me acolhe.
A gente pode te abraçar em outro momento. A gente pode falar das suas vivências em outro momento. Mas, se o assunto for feminismo, deixa a amiguinha falar.
sábado, 12 de setembro de 2015
"Mas eu também sofro"
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário