Com um grande atraso devido à adaptação de volta de
semestre, retomo minha narrativa da Coréia. E do namorado, que foi o motivo
dessa história.
Clique aqui para ler a parte 1. Fico devendo ainda a parte
3, e talvez a 4 (meta: Páscoa). Vou intercalar com posts sobre outros assuntos.
Capítulo 3 – Reencontro
Enfim eu desembarquei, e encontrei o namorado. E a gente
acha que o coração vai sambar na avenida, mas ele simplesmente ficou tranquilo.
Como se não fizessem seis meses da despedida sofrida em Guarulhos; como se eu
não tivesse ficado perdida a ponto de não saber o que iria comer; como se eu
não tivesse passado três meses planejando em detalhes aquele reencontro. No tão
esperado momento, o coração só achou tudo óbvio. Claro que a gente ia se
reencontrar. A gente fica tão bem junto. O coração simplesmente achou que
estava no lugar certo para se estar e
não viu nada demais nisso. Ficou confortável batendo junto no abraço bem
comportado no meio daquele povo coreano tão discreto. O coração se mete nessas
aventuras em lados opostos do mundo, mas na verdade tudo o que acredita é que
amar é dividir travesseiro, sem drama.
Genuinamente feliz, sem ter que pensar a respeito. Feliz
apenas, sem penas. Só feliz, e junto.
Troquei minha havaiana por botas de neve e coloquei o
sobretudo. Namorado me emprestou luvas e tinha e levado um lanchinho que eu nem
comi, mas que foi fofo (e sábio) de ter lembrado. E fomos juntos pegar metrô
rumo a nosso hotel em Seul, abraçados na medida da educação e das malas e
falando tudo ao mesmo tempo.
Capítulo 4 – Algumas observações da Coréia
No final da viagem, quando me perguntaram o que eu mais
tinha gostado da Coréia, empaquei para responder. A pessoa esperava um lugar.
Vi vários incríveis (que serão citados ao longo do texto), mas não foi o que
mais gostei. Já disse, gosto mesmo é de gente. Então o que eu mais gostei foi de observar as pessoas, ver as
propagandas e as vitrines, experimentar as comidas, passear por aí. Para mim, o
melhor da Coréia é a aventura diária de se estar em um país tão diferente. As
descobertas.
- Me dê conselhos – Pedi ao namorado, ainda no metrô indo do
aeroporto ao hotel. – Quero saber me comportar aqui.
Ele já tinha e dito para falar baixo no metrô, o que para
mim, barulhenta que sou, é um desafio. Coreanos são um povo silencioso e imerso
em seus próprios celulares. Estranho
estar em um vagão com tantas pessoas de olhos puxados. Nas outras viagens
internacionais que fiz (EUA, Europa; como eu sou metida), se eu fizesse cara de
quem sabia o que estava fazendo era até possível fingir que não era turista. Em
Estocolmo até pediram informações em sueco pra minha irmã. Na Coréia, minha
estrangeirice gritava, o que chegava a ser angustiante.
O namorado tinha dito também para nos comportarmos, que não
se beija em público na Coréia (vi rápidos selinhos). Tinha dito que os casais
se vestem com a mesma roupa – tênis, jeans justo, agasalho. E em lojas de
lingerie tem conjuntos hilários de calcinha, sutiã e cueca. Mistérios culturais
– como não ter um ataque de riso e conseguir levar adiante os amassos quando
por baixo da calça o cara está com uma cueca de rosas, ou de oncinha. Fiquei
também imaginando a despesa inicial que é uniformizar guarda-roupa, e o que se
faz quando termina namoro. Verdade seja dita, vi poucos casais iguais dos pés
da cabeça; mas peças individuais (tênis, agasalho) eram bem comuns.
O vestuário coreano é todo diferente. Eles usam óculos de
aro grosso sem lente, apenas por achar bonito. Adoram meias – modelos
coloridos, com diversas estampas, são vendidos em todo lugar; e vi mulher
adulta com meia de cachorrinho e diversos rapazes com calças curtas e meias
coloridas a ostra. Como evidenciado pelas cuecas berrantes, as fronteiras entre
o vestuário masculino e feminino são bem mais tênues.
Mas essas foram considerações que fui fazendo ao longo da
viagem. Voltemos ao início dela.
Depois de pensar um pouco, o namorado me disse no metrô que,
como no Japão (uso o Japão de referência por ser o país oriental com cuja
cultura creio que brasileiros em geral tenham mais contato) em alguns
restaurantes se tira o sapato. Fica bem claro em quais se tira, há um degrau
marcando e lugares para guardá-los. Por ser comum tirar sapatos, botas coreanas
são fáceis de tirar. Nas que tem cadarço, o cadarço é falso, e há um zíper
lateral. Praticidade é o que há. Ah, isso de tirar os sapatos também explica a
fixação por meias.
O namorado também me deu ainda no metrô o sábio conselho de
que molho vermelho nunca é de tomate, já que os coreanos são aficcionados por
pimenta (ao longo da viagem, descobri também que olho branco nunca é queijo, e
sim maionese).
Outro hábito compartilhado com outros orientais é o comer de
palitinho – na Coréia eles sem chamam algo como “tchucará” (com o perdão do meu
modo de escrever, o Google não está me ajudando), e são finos (e não
arredondados como os hashis japoneses) para permitir cortar. O namorado me
lembrou que não se pode espetá-los na comida, pois há o simbolismo de morte.
Além do “tchucará”, é utilizada uma colher de cabo comprido (comida coreana,
quando não é caldo, vem com uma sopa extra).
Últimos conselhos de primeira viagem que recebi: sempre
cumprimentar os vendedores ao se entrar em lojas, e sempre entregar dinheiro ou
cartão com a mão direita, levando a esquerda debaixo do cotovelo. São bons
modos.
Paramos para eu trocar meus dólares por wons (um dólar vale
pouco mais de mIl wons), e depois no centro de Seul. Saímos do metrô com suas
infinitas lojas e vi que outra coisa que o namorado contava era verdade: a
Coréia é clara à noite. A iluminação pública é forte, mas o que mais chama
atenção nas ruas são as fachadas com letreiros brilhantes e coloridos.
O país mais colorido do mundo, e tão colorido que a noite
fica mais clara que o dia. Talvez porque as jornadas de trabalho sejam imensas
(12h ou mais) e se aproveite mais a noite que o dia...
Encantei-me com aquelas luzes que eu não sabia ler. Ê mundo.
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