- Sabe, Marina, você tem toda a razão. Peço desculpas, de verdade. Você não deveria ter que vir até a minha sala para dizer que eu errei o seu número de faltas. Eu é que deveria me desculpar por tê-la forçado a assistir 75% das minhas aulas. Sei que são preciosas horas da sua juventude que jamais irão voltar. Eu já sou um homem velho. Solitário. É por isso que ameaço bombar pessoas como você, com toda uma vida pela frente, porque vieram rigorosamente o número de vezes necessárias para a minha tortura de sexta-feira às oito da manhã. Sim, Marina, peço desculpas por ser uma pessoa tão cheia de ressentimentos. E por todos os comentários machistas e homofóbicos que fiz em minhas aulas, e mesmo por todas as piadas ruins feitas quando eu deveria estar dando conteúdo. Desculpe por falar que homem que gosta de costurar é bichinha, por dizer que ninguém controla mulher quando quer dar, por dizer que seu curso na Unicamp é ruim quando nunca fiz nada no sentido de melhorá-lo. Desculpa por ocupar seus ouvidos com minhas teorias da perseguição. Desculpe por passar provas de completar lacunas do livro, por passar listas com 40 exercícios iguais e longos para entregar. Eu sei que sou um péssimo professor. Desculpe-me, Marina, desculpe-me por tudo. E obrigado por me fazer pensar. É Natal. Época de repensar nossas vidas. Eu irei repensar a minha. Irei mandar uma carta pedindo desculpas a todos que tiveram o desprazer de serem meus alunos. Irei me aposentar e viajar, fazer cursos, ler mais e criar ideias melhores, menos preconceituosas. Irei ser um homem bom. Obrigado, Marina! Todo ano lhe mandarei os melhores chocolates de onde quer que eu esteja. E é claro que você não vai bombar por faltas, menina!
Ia ser bom, não?
Olha só como não é difícil me fazer feliz.
PS: E eu realmente não estourei minhas faltas...
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