São Paulo, capital
Eu já fui para São Paulo um bom número de vezes, e ainda assim a chegada é sempre um choque. A rodovia é verde e linda; eu adoro dirigir por aqui, vento na cara feito cachorro. E então surge o obelisco, e eu o passo, e estou na maior cidade do país, e de todo o lado brotam ruas e o verde vira cinza. Sinto que a cidade podia me comer viva. A cidade, um organismo pulsante. E eu, essa mocinha de mente tão interiorana - não por ter vindo de onde vim, mas por ser quem sou. Eu na marginal tietê parada e os motoqueiros passando tão rápido e perto. É tudo grande, enorme, cinza, cinza, cinza! E eu sufoco, e há tantos prédios e tantos carros e tanta vida naquilo ali.
Nunca vou entender São Paulo. Nunca vou perder o medo de São Paulo. Sempre vai ser grande demais para mim. E eu gosto. Do mundo ser grande, da cidade ser cinza, e de eu ser pequena e poder sufocar num mundo de gente socada num metrô. Gosto de desbravar a cidade como estrangeira, porque assim sei que sempre serei quem sou, e a cidade o que é, nunca banal.
Gosto de saber que posso me perder no mundo.
Belém do Pará
Dois meses que não sinto o cheiro da minha casa.
Confesso que não reconheço, mas minha irmã sim. Ela tem mania de cheirar minhas roupas quando as tiro da mala, diz que se diverte com o cheiro que não é dali.
Não sinto simplesmente porque é meu cheiro, minha casa, e é tão simples que a gente não repara.
Minha irmã diz que esquece, que acha que é só um dia em que volto mais tarde pra casa. Uma lágriminha escorre; ela diz "pára!", e eu paro porque é bom demais nunca perder esse pertencer. É a minha casa.
Sou paraense, de sol e de chuva, bacuri com açucar e farinha e doce de cupuaçu.
Gosto de saber que há um mundo que é meu.
Barão Geraldo, Campinas
Ainda me pego sorrindo á toa às vezes indo ou voltando da aula, olhando as pessoas jogando nas quadras da Educação Física e parando na banquinha de frutas para comprar meia duzia de bananas. Eu simplesmente adoro este lugar, adoro poder ir e voltar andando da aula, adoro passar meus dias inteiros na universidade, comer na bandeja, sentar debaixo de árvore, reclamar de prova. Eu gosto demais desse lugar, dessa vida.
E quando eu acho que finalmente me adaptei, que virei uma igual, solto uma frase à toa:
- Era uma criança pirenta.
Ele levanta as sobrancelhas:
- O que é uma criança pirenta?
Eu salto no banco.
- Pirenta. Tem pira. Você não sabe o que é pira???
Não, eu nunca serei banal. Sempre serei a menina lá de cima, de longe, com os erres diferentes e vocabulário à parte.
Gosto de mundo.
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