Manhã
Eu realmente precisava lavar roupa, ou simplesmente teria de andar por aí pelada. O que seria desagradável não apenas por questões púdicas, mas também porque a temperatura não para de cair e, apesar de já ser meu segundo ano morando pelas bandas daqui e aqui ser na verdade até bem quente, eu continuo nortista e nortistas acham que 24´C é frio.
Assim sendo, taquei tudo na máquina de lavar antes de sair para a aula das 8h e voltei para casa correndo na hora do almoço, para estender.
Entro e passa um dos vizinhos de kitnet na direção oposta; alicate e outras ferramentas na mão e riso na cara.
- Viu o que eu fiz, vizinha?
- Não - e não tinha mesmo, e estava curiosa.
- Hoje de manhã a outra vizinha me acordou para eu tirar o carro, que estava prendendo o dela. Mas eu ainda estava meio dormindo, sabe? E esqueci de apertar o botão que abre a garagem.
- Heim?
- Aí eu dei ré e levei o portão comigo.
- Como???
- O portão engatou no carro e foi parar no meio da rua.
Ambos esgasgados de rir.
- Encaixei ele de novo agora, um técnico vem depois consertar o controle. Nem arranhou muito o carro, só deixou umas marquinhas de tinta branca...
- Eu queria tanto ter visto isso!
Tarde
Estendi roupa, passei no banco e no mercado para comprar energético e voltei apressada para a universidade, porque o professor das 14h não deixa ninguém entrar depois dele e se dá ao trabalho de fazer chamada. Última aula antes da prova.
Antes da história, uma apresentação do cenário:
Aos bixos, a primeira vista das salas do ciclo básico é sempre um momento marcante. Um amigo diz que vai construir uma em casa quando for milionário. Circulares, meio auditório; com lousas que podem ser baixadas e subidas, diversas opções de luzes que podem ser ligadas e desligadas ("Me sinto num motel", soltou um professor substituto um dia). As cadeiras são acolchoadas, dispostas como em cinema. Pregadas no chão e entre si, certamente projetadas por um engenheiro que se formou graças a muita cola. Mesas dobráveis no estilo avião. E embaixo das mesas, pregada nas costas de cada carteira, uma grade de metal que serve para guardar os livros mas que eu, com minhas pernas compridas e postura ruim, uso para apoiar os pés.
É claro que um dia ia dar merda.
Terça, umas 14:10h, deu.
- Putz, meu tênis engatou na carteira. - eu disse ao me amigo sentado do meu lado.
Ele arregalou os olhos.
- Como?
- Assim - eu puxei a perna para mostrar que não saia, e me dei conta que a alça da minha mochila estava engatada na perna cujo pé estava engatado na carteira.
É claro que a gente começou a rir.
É claro que o porfessor reclamou.
É claro que a gente não conseguia parar de rir.
Eu puxando o pé intilmente. Meu amigo me dizendo como dobrar a perna, flanelinha de pé. A mochila sacudindo.
Até eu ter qe soltar o cadarço e tirar o sapato, desenrolar a mochila e então puxar o tênis sozinho.
Eu lagrimava de rir e minhas bochechas doiam.
- Fora, vocês dois. - Disse o professor.
Eu fiquei tão surpresa que nem entendi.
- Fora da sala.
- Mas meu sapato...
- Fora.
E assim eu, universitária com 22 anos na cara, fui expulsa de sala como nunca na escola. E em tempo recorde.
Noite
Bebi o energético e fiquei estudando para a prova pela faculdade, porque em casa a proximidade com a minha cama prejudica meu rendimento acadêmico.
Já era mais de 1h quando o sono bateu e eu fui rumo ao carro, e passei minha carteirinha para desbloquear a porta e apertei o botão para abrir a outra porta.
Mas a outra porta não abriu.
Apertei de novo.
Oh não.
Lembrei do dia que tive que pular o portão. Fui rumo a ele, mochila pesada, noite fria, eu sozinha. Apoiei um pé, puxei a perna, e vi que ia dar um trabalho...
Voltei e apertei o botão de novo, e ele resolveu me obedecer.
O portão de casa já estava consertado quando e cheguei e desabei de sono, e só no dia seginte fiquei sabendo que o professor adiara a prova.
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