terça-feira, 22 de julho de 2008

Cabeça Quebrada

Pessoas são quebra-cabeças. Não no sentido habitualmente usado – de complicadas, embora haja as que de fato o sejam; não, minha metáfora é outra. Pessoas são quebra-cabeças porque características são pecinhas que se encaixam. Virtudes e defeitos – ou características apenas, porque os dois podem ser a mesma coisa sobre diferentes pontos de vista – têm proeminências e reentrâncias, de um tamanho muito específico onde só há uma combinação possível. Personalidade não é construída na aleatoriedade de um carteado de baralho; vem em combos. Cada pedaço é uma parte fundamental da inteireza do todo, que tanto completa quanto justifica. É-se muito mais do que o desenho gravado sobre as peças; é-se as peças em si.
Não se é um só quebra-cabeça a vida toda, mas não se pode simplesmente trocar uma peça. Pode-se arrancá-la à força, mas fica um espaço incompleto; pode-se forçar outra no lugar, mas o encaixe será falso e tanto a nova peça quanto suas redondezas serão deformadas. Mudanças exigem reconstrução de trechos inteiros, mudanças de formato. Mudar exige se desmontar, e há tanto quem se desmonte ou seja desmontado. Ser desmontado dói mais, desmontar-se exige coragem e dá trabalho, e sempre há o risco de se ficar para sempre despedaçado, ou de o resultado final ser pior que o início. As peças se espalham e fica até difícil saber o que é verdadeiramente seu. A reconstrução exige encarar seus encaixes antes escondidos, suas pontas afiadas, rombadas, seus furos. É o único modo de conseguir o controle das peças.

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