quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sobre livrarias e livros

Tenho um problema muito sério com livrarias: não consigo sair delas sem nada. É o lugar onde meu consumismo é mais ativado, com os sintomas mais típicos: fascínio; vontade de levar tudo, ansia, necessidade de ter. Posso passar um dia inteiro dentro de uma moderadamente grande, e sair de lá feliz, feliz.
O prazer da livraria começa ao se passear por ela, olhando aqueles volumes cheios de palavras. Eu amo as palavras. Passear em uma livraria me dá uma vontade imensa de escrever e publicar – ativação de sonho de infância. Se fossemos analisar de um modo mais psicólogo, acho que se poderia relacionar toda minha paixão por livrarias com minha infância, na verdade: meus pais sempre me levavam a elas, e sempre saiamos os três felizes: eu com um novo volume, eles por terem uma garotinha apegada à leitura. Eles realmente acreditavam que os livros me fariam uma pessoa melhor, e posso ao menos dar garantia de duas coisas: por gostar de ler perdi menos tempo vendo TV, e acabei aprendendo a escrever por inércia (por “aprender a escrever” entenda-se não juntar palavras em frases, como a maioria das pessoas faz; mas escrever textos com um português razoável e uma linguagem moderadamente interessante).
Há alguns passos a serem seguidos para a escolha de um livro: primeiramente olha-se todos, julgando pela aparência; ao se ver um interessante, analisa-se o conteúdo; e se for do seu agrado, arranjou-se, pois, companhia por algum tempo agradável. É quase como escolher ficante, rolo, caso, namorado. Dependendo do que você esteja procurando.
O julgamento pela aparência, no caso, é olhar a capa. Não sei se quem as faz já se deu conta de sua importância, mas marketing é fundamental. Como freqüentadora assídua de livrarias, tenho lá minhas implicâncias: não gosto de livros aonde o nome do autor vem maior do que o nome do livro, por exemplo - além de ser antiestético, não valoriza o produto em si. Também acho feias as capas aonde vem escrito “do mesmo autor de.”. Para mim, passa a impressão de não se estar lendo o livro mais interessante do autor. De uns tempos para cá, surgiu também a mania de se colocar citações de jornais da capa: coisas do tipo “um livro inesquecível”, etc. Outra coisa horrorosa, na minha reles opinião: é difícil por credibilidade em um comentário assim, tão seco e sem contexto, e exposto na capa do elogiado! Ainda mais sendo algo que está em todo lugar.
O título também é importantíssimo: marketing, sim; mas também um pouco do conteúdo. Penso que deve ser difícil dar um bom nome a um livro, tendo-se em vista que já acho difícil dar nomes a meus posts. Como sou fã de romances, gosto de títulos de efeito. Como exemplo, ocorreu-me agora “A menina que roubava livros”. É um título interessante, não? (O livro, que li há alguns meses, também é muito bom, por sinal – escrita bonita, apesar do tema clichê. Triste demais, mas encantador). Como contraposto, lembrei de “Quando Nietzsche chorou”. O título é ruim porque só é inteligível para quem já conhece algo de Nietzsche, e para quem já conhece algo de Nietzsche o livro é sem graça - sua virtude é expor alguns pensamentos do filósofo; sua sem-gracice é muitas vezes convertê-los em auto-ajuda. (Devo dizer que só li o livro porque minha mãe o tinha comprado e ele estava lá por casa. Gostei dele no geral, mas não particularmente).
Por último, a avaliação final: a leitura da contracapa e das primeiras páginas. As contracapas atuais já não dizem muito, cheias daqueles comentários de jornal que agora estão; mas pelo menos em livrarias os vendedores não são como os de algumas lojas, que lhe atacam na entrada perguntando em que poderiam ajudar e ficam lhe comendo com os olhos enquanto você passeia depois de dizer que está apenas olhando. As melhores livrarias são as que têm poltronas e lhe deixam totalmente em paz para escolher o quanto quiser: você se senta e lê o primeiro capítulo todo antes de decidir se a escrita é agradável e se o tema é interessante – nem clichês nem pedantes demais.
Além de escolher volumes que lhe agradam, outra coisa legal em livrarias é folhear o tipo de coisa que você jamais compraria: para isso, as que também são revistarias são particularmente divertidas. Aí vale tudo: horóscopo, dietas, auto-ajuda, moda. Convenhamos que há muita coisa que não vale nosso dinheiro. Uma boa livraria lhe deixa folhear a revista e não perturba.
Os sebos são uma categoria a parte de livraria, com um charme diferente. Eu gosto da poeira, das folhas amarelas, da história daquilo ali. Confesso que tenho uma queda por velharias. Os preços também são bem convidativos. E é bom também fugir um pouco dos lançamentos, dos mais vendidos. Leio menos clássicos do que seria recomendável; mas em sebos eles se tornam particularmente atrativos. É legal também poder escolher diferentes edições do mesmo livro. Outra coisa: nunca, sob hipótese alguma, alguém lhe ataca num sebo.
Uma vez, conversando com um amigo que é adepto de baixar tudo da internet, expliquei que tenho um certo fetiche por livros: o papel, a textura, o cheiro, a praticidade de se pode levar para todo lugar. A companhia. Ele concordou com meu interesse pelo cheiro de folhas novas, mas chamou meu gosto pelos antigos de perversão. Aquilo foi particularmente engraçado.
Marina, a pervertida dos livros.

PS: Recentemente li um interessante exercício de metalinguagem: “A arte de escrever”, de Schopenhauer. Até pensei em escrever um post sobre o assunto, mas faltou inspiração. Bem, aproveito então para recomendá-lo agora: trata-se de uma edição selecionando parte de um livro maior (cujo nome agora esqueci e estou com preguiça de procurar). É um livro de bolso, bem baratinho (eu ao menos imagino que seja, já que foi outro dos livros que minha mãe comprou e li porque achei lá por casa) e com uma edição cuidadinha. Traz uns pontos de vista bem interessantes e atuais, como a questão de autores normalmente se elogiarem entre si por cortesia (achei a parte em que ele fala que não se devia ter no mio literário o mesmo cuidado educado de não magoar o outro com criticas que se tem na vida real particularmente aplicável para blogs), a mania de se achar que o atual é sempre o melhor e não se ler os antigos, o hábito detestável de se usas palavras difíceis para se disfarçar a falta de conteúdo e se tentar parecer dizer mais do que realmente se diz. A visão da leitura excessiva como destruição da capacidade de raciocínio é bastante interessante. Os momentos em que ele fala mal das traduções me deram uma grande vontade de me dedicar mais o meu alemão e aprender latim, mas há de se convir que isso é puritanismo excessivo. E infelizmente atualmente não se pode mais viver só para algo, e sim de algo.

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