domingo, 11 de novembro de 2007

Uma carta que você não irá ler

E mais uma vez a situação chega ao ponto em que prefiro escrever a dizer. Há algo de errado comigo? Talvez eu não seja boa em escolher amigas; há precedência na situação. É, eu gosto demais das pessoas. Começo a pensar que talvez seja um defeito.

Amiga, amiga...

E por algum motivo nosso suposto bom-mocismo lhe oprimia. Oh, quem diria? E o pior é que desde o início todos já havíamos reparado, e mesmo assim continuamos a seu lado. Por que? Porque nosso grupo é assim, e é nisso que consiste nossa magia. E você não soube aproveitar. Nossa união provém da cumplicidade e do não-julgamento, de poder dizer tudo. E é estranho pensar que, ao crer que iríamos julgá-la e não confiar em você, foi você que nos julgou e não confiou na gente. Que não dissesse tudo não havia problema, todos temos nossos segredos. A questão é outra. Você é outra. Você não é quem fingia ser com a gente, e displicentemente fingíamos não reparar. Porque tudo o que desejávamos era que você se sentisse segura para afinal tirar essa máscara. Mas você é a máscara, você não deve saber quem é você. Você foge da gente porque foge de si mesma, e uma hora a gente cansou de tentar lhe ajudar a se procurar. Você não quer se procurar, você prefere não ser você, não ser ninguém, ser um reflexo do que você acha que os outros queriam que você fosse. Nós queríamos que você fosse você, e só.
Ai, nosso bom-mocismo, maldito bom-mocismo que lhe impedia de ser você. Nós não somos meninas tão boas como parecemos, isso eu posso lhe garantir. Já aprontamos, apanhamos da vida, e ouvimos muitas histórias que – surpresa – não nós impediram de viver. Não julgaríamos seu presente, seus gostos, seu passado. Como você pôde não reparar que o tempo todo estávamos aqui, a seu lado? Não consigo entender. E o tempo todo, todos sabíamos que você não era quem fingia ser... E suas histórias mudavam, e a gente fingia e não ver. E suas desculpas urravam, e a gente relevava, porque você era uma de nós. E você magoou feio um de nós; revelou um segredo a um estranho, e ainda assim ele não disse nada, para protegê-la. Mas no final... No final não valeu a pena, você não é você, e isso é tudo. A gente demorou tanto a conversar e perceber! A gente protegia alguém que não era um alguém. E nós podemos superar tudo, menos o nada que agora é você.
E talvez ainda saiamos juntos, talvez a gente ainda lhe ligue, mas você deve inventar outra desculpa e mais uma vez não querer.
Eu realmente espero que um dia você encontre amigos em quem confie e descubra quem afinal é você.

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