Eu sou doadora de sangue. Eu dizia que seria desde quase sempre, mas hoje o virei de fato – quase um ano e meio depois do meu décimo oitavo aniversário, um pequeno constrangimento para minhas promessas. Mas se antes tarde do que mais tarde ainda, agora finalmente o sou. Sinto-me feliz e realmente acredito que fiz algo de bom para o mundo; pode não parecer sempre, mas ainda sou muito crente no valor de pequenas atitudes. E pretendo assim continuar.
Foi minha primeira vez, então acho que é válido dividir a experiência. Quem sabe se eu não convenço alguém? E quem sabe se assim eu e esse alguém não ajudamos muitos alguéns?
Foram duas coisas que me fizeram finalmente partir da vontade para a ação: uma campanha e uma aula que durou quatro horas. A campanha é para ajudar um menino que sofre de leucemia e precisa de um transplante de medula (essas letrinhas cor-de-rosa são um link para a comunidade da campanha; eu devo falar mais dela em outro post ao longo da semana). A aula foi de imunologia, explicando como o corpo reconhece o que é seu e o que não é. É fascinante. E o professor fez uma boa propaganda de doações de sangue, órgãos e tudo o mais, e eu, que tenho interesse no assunto, fiquei depois da aula para fazer perguntas. Foi quando tive a confirmação de que poderia, sim, doar, apesar de ter tido hepatite aos 2 anos: em tese, só não pode doar as pessoas cuja hepatite C tornou-se crônica. Isso só ocorre em cerca de 30% dos casos, mas é difícil confirmar se a doença de fato se foi. Por que não se costuma deixar pessoas que sofreram outras hepatites (A e B) doarem? Porque não se tem certeza que as hepatites foram de fato A e B. Mas hepatite C só é transmitida sexualmente ou por sangue contaminado, então isso praticamente exclui doenças contraídas na infância.
Então hoje de manhã saí de casa decidida a passar no hemocentro depois de fazer o que tinha para fazer. Sozinha mesmo, porque nunca encontrei ninguém disposto como eu. E fui.
O guarda da entrada me indicou uma sala. Eu achava que teria que pegar algum tipo de fila, mas foi inocência da minha parte: fila para doar sangue, onde já se viu? Seria bom se houvesse. Fui atendida primeiramente por uma senhora sem muito entusiasmo; mas não é particularmente entusiasmante trabalhar sábado em horário de almoço, então relevei. Ela só pegou meus dados pessoais mesmo, e me encaminhou para outra sala. Antes de ir perguntei sobre os procedimentos para virar doadora de medula também, e fiquei chateada ao saber que isso só se faz dia de semana. Bem, voltarei lá algum dia desta semana.
Na sala seguinte começou o interrogatório maior, feito de modo mecânico. Certo, gente, é ruim trabalhar sábado em horário de almoço, mas custa mostrar um pouco mais de animação? Ela pediu meu braço esquerdo, pegou uma agulhinha descartável e sem aviso prévio colocou um aparelho ao redor do meu pulso e picou meu dedo indicador “para medir hemoglobinas”, segundo disse depois. Bobagem, não dói nada, mas é que eu esqueci de contar um detalhe fundamental: eu morro de medo de agulhas. Se eu já fiquei meio tensa ao ter o meu dedo furado, vocês podem imaginar o que vem a seguir.
As perguntas foram várias: das clássicas sobre o número de parceiros sexuais e se já tive algumas muitas doenças até se tinha saído de Belém nos últimos seis meses (para se saber se tinha estado em algum lugar onde era provável pegar malária, principalmente, acho), se tinha tomado vacinas recentemente, se estava menstruada, se tinha dormido bem. E então também se eu estava alimentada. Na minha cabeça eu estava, tinha tomado café e trazido uns biscoitos para comer antes de doar sangue. Mas ela me disse que eu não estava, não, e me mandou ir ao fim do corredor pegar um “lanche com sopa” e esperar meia hora antes de doar. E lá fui, perguntando-me “como assim”? Lanche com sopa, que coisa estranha. Eu sabia que eles davam comidinhas aos doadores, mas esperava uns biscoitinhos canalhas e só. Até por isso eu tinha me dado ao trabalho de “me alimentar”.
O carinha da cantina foi a primeira pessoa realmente animada do lugar, gentil e tudo. Eu me sentei em uma mesinha de um refeitório basicão e ele me trouxe o tal lanche. Que na verdade era uma refeição e tanto: uma grande porção de sopa, um sanduíche de queijo, uma maça e dois copos de um suquinho cítrico adocicado. Nem comi tudo. E então fui para outra salinha de espera, onde fiquei sentadinha esperando a meia hora passar, lendo avisos e vendo jornal.
Um dos avisos recomendava lugares gratuitos para onde deveria ir quem só queria fazer exame de AIDS. Isso é realmente importante porque o vírus tem um período de incubação no qual não pode ser detectado. Lembre-se disso se tomar alguma atitude imprudente e quiser saber logo no que deu. Uns panfletos falavam quem podia doar sangue: pessoas entre 18 e 65 anos, acima de 50kg. Também dizia que doar sangue é seguro, e não dói.
Ah, espere aí. Na hora, eu achei esse dado tremendamente apelão. Seguro é sim, mas... Como assim, não dói? Uma agulha enorme vai me furar e tiram muito do meu sangue e não vai doer? Duvidei.
De vez em quando alguma das pessoas responsáveis pela coleta vinha perguntar se o tempo tinha acabado. Elas eram animadas, também. Eu olhava do relógio à sala de coleta, com aquelas camas estranhas. Como poltronas alongadas, na verdade. Friozinho na espinha. É, eu tenho um medo muito idiota de agulhas.
Em algum momento nessa meia hora vi o que mais me deu medo: uma moça doando sangue, com uma espécie de mangueira presa na veia.
Ah, não... Iam colocar uma mangueira na minha veia? Que coisa horrível, que medo, eu odeio agulhas, isso vai doer muito...
Mas eu estava lá, e continuei. Até que a meia hora passou.
Fui a salinha de doação. Nossa, eu estava tensa. Uma senhora simpática checou minha identidade e me deu um papel e quatro bolsas plásticas para coleta, e me indicou a moça que coleta que estava livre.
Quatro bolsas. Quatro. Caramba, tanto assim? Eu ia mesmo ficar bem?
Deitei na cama esquisita... Estiquei o braço... A moça da coleta analisou minhas veias finas, escolheu uma... Tentei respirar fundo. E então ela furou.
Surpresa: não dói mesmo. Apenas quando a agulha entra e sai. E fiquei na caminha um tempo, abrindo e fechando a mão, respirando fundo, volta e meia olhando para a bolsa se enchendo com meu sangue. Minha cara não devia estar das melhores, porque a todo tempo me perguntavam se eu estava bem, mas eu estava. Só tensa com aquela agulha em mim, aquele sangue jorrando. Espero que ajude alguém, que o fruto do meu medo seja útil. A pessoa não saberá que o sangue corria nas veias de uma menina que tem medo de agulhas. O que é o medo de agulhas perto de uma vida humana?
E então acabou. Ela tirou a agulha, falou que eu tinha que repousar e dos exames que vão chegar e me mandou de volta ao refeitório. Onde me deram de novo toda aquela enormidade de comida. Forcei-me a comer a sopa, mesmo cheia. Eu não queria passar mal. Li o papel que tinha recebido, ele dizia que, caso eu fosse funcionária pública, estaria livre do trabalho neste dia – é um direito assegurado por lei.
E assim seguiu o dia. Senti-me apenas um pouco fraca nas primeiras horas, mas nada incapacitante. Uma pequena dor no braço da coleta e um orgulho bobo de mim mesma.
Doe sangue. É seguro, não dói, você ganha comida e um dia de folga, sente-se uma espécie de herói e ainda ajuda a salvar vidas.
Foi minha primeira vez, então acho que é válido dividir a experiência. Quem sabe se eu não convenço alguém? E quem sabe se assim eu e esse alguém não ajudamos muitos alguéns?
Foram duas coisas que me fizeram finalmente partir da vontade para a ação: uma campanha e uma aula que durou quatro horas. A campanha é para ajudar um menino que sofre de leucemia e precisa de um transplante de medula (essas letrinhas cor-de-rosa são um link para a comunidade da campanha; eu devo falar mais dela em outro post ao longo da semana). A aula foi de imunologia, explicando como o corpo reconhece o que é seu e o que não é. É fascinante. E o professor fez uma boa propaganda de doações de sangue, órgãos e tudo o mais, e eu, que tenho interesse no assunto, fiquei depois da aula para fazer perguntas. Foi quando tive a confirmação de que poderia, sim, doar, apesar de ter tido hepatite aos 2 anos: em tese, só não pode doar as pessoas cuja hepatite C tornou-se crônica. Isso só ocorre em cerca de 30% dos casos, mas é difícil confirmar se a doença de fato se foi. Por que não se costuma deixar pessoas que sofreram outras hepatites (A e B) doarem? Porque não se tem certeza que as hepatites foram de fato A e B. Mas hepatite C só é transmitida sexualmente ou por sangue contaminado, então isso praticamente exclui doenças contraídas na infância.
Então hoje de manhã saí de casa decidida a passar no hemocentro depois de fazer o que tinha para fazer. Sozinha mesmo, porque nunca encontrei ninguém disposto como eu. E fui.
O guarda da entrada me indicou uma sala. Eu achava que teria que pegar algum tipo de fila, mas foi inocência da minha parte: fila para doar sangue, onde já se viu? Seria bom se houvesse. Fui atendida primeiramente por uma senhora sem muito entusiasmo; mas não é particularmente entusiasmante trabalhar sábado em horário de almoço, então relevei. Ela só pegou meus dados pessoais mesmo, e me encaminhou para outra sala. Antes de ir perguntei sobre os procedimentos para virar doadora de medula também, e fiquei chateada ao saber que isso só se faz dia de semana. Bem, voltarei lá algum dia desta semana.
Na sala seguinte começou o interrogatório maior, feito de modo mecânico. Certo, gente, é ruim trabalhar sábado em horário de almoço, mas custa mostrar um pouco mais de animação? Ela pediu meu braço esquerdo, pegou uma agulhinha descartável e sem aviso prévio colocou um aparelho ao redor do meu pulso e picou meu dedo indicador “para medir hemoglobinas”, segundo disse depois. Bobagem, não dói nada, mas é que eu esqueci de contar um detalhe fundamental: eu morro de medo de agulhas. Se eu já fiquei meio tensa ao ter o meu dedo furado, vocês podem imaginar o que vem a seguir.
As perguntas foram várias: das clássicas sobre o número de parceiros sexuais e se já tive algumas muitas doenças até se tinha saído de Belém nos últimos seis meses (para se saber se tinha estado em algum lugar onde era provável pegar malária, principalmente, acho), se tinha tomado vacinas recentemente, se estava menstruada, se tinha dormido bem. E então também se eu estava alimentada. Na minha cabeça eu estava, tinha tomado café e trazido uns biscoitos para comer antes de doar sangue. Mas ela me disse que eu não estava, não, e me mandou ir ao fim do corredor pegar um “lanche com sopa” e esperar meia hora antes de doar. E lá fui, perguntando-me “como assim”? Lanche com sopa, que coisa estranha. Eu sabia que eles davam comidinhas aos doadores, mas esperava uns biscoitinhos canalhas e só. Até por isso eu tinha me dado ao trabalho de “me alimentar”.
O carinha da cantina foi a primeira pessoa realmente animada do lugar, gentil e tudo. Eu me sentei em uma mesinha de um refeitório basicão e ele me trouxe o tal lanche. Que na verdade era uma refeição e tanto: uma grande porção de sopa, um sanduíche de queijo, uma maça e dois copos de um suquinho cítrico adocicado. Nem comi tudo. E então fui para outra salinha de espera, onde fiquei sentadinha esperando a meia hora passar, lendo avisos e vendo jornal.
Um dos avisos recomendava lugares gratuitos para onde deveria ir quem só queria fazer exame de AIDS. Isso é realmente importante porque o vírus tem um período de incubação no qual não pode ser detectado. Lembre-se disso se tomar alguma atitude imprudente e quiser saber logo no que deu. Uns panfletos falavam quem podia doar sangue: pessoas entre 18 e 65 anos, acima de 50kg. Também dizia que doar sangue é seguro, e não dói.
Ah, espere aí. Na hora, eu achei esse dado tremendamente apelão. Seguro é sim, mas... Como assim, não dói? Uma agulha enorme vai me furar e tiram muito do meu sangue e não vai doer? Duvidei.
De vez em quando alguma das pessoas responsáveis pela coleta vinha perguntar se o tempo tinha acabado. Elas eram animadas, também. Eu olhava do relógio à sala de coleta, com aquelas camas estranhas. Como poltronas alongadas, na verdade. Friozinho na espinha. É, eu tenho um medo muito idiota de agulhas.
Em algum momento nessa meia hora vi o que mais me deu medo: uma moça doando sangue, com uma espécie de mangueira presa na veia.
Ah, não... Iam colocar uma mangueira na minha veia? Que coisa horrível, que medo, eu odeio agulhas, isso vai doer muito...
Mas eu estava lá, e continuei. Até que a meia hora passou.
Fui a salinha de doação. Nossa, eu estava tensa. Uma senhora simpática checou minha identidade e me deu um papel e quatro bolsas plásticas para coleta, e me indicou a moça que coleta que estava livre.
Quatro bolsas. Quatro. Caramba, tanto assim? Eu ia mesmo ficar bem?
Deitei na cama esquisita... Estiquei o braço... A moça da coleta analisou minhas veias finas, escolheu uma... Tentei respirar fundo. E então ela furou.
Surpresa: não dói mesmo. Apenas quando a agulha entra e sai. E fiquei na caminha um tempo, abrindo e fechando a mão, respirando fundo, volta e meia olhando para a bolsa se enchendo com meu sangue. Minha cara não devia estar das melhores, porque a todo tempo me perguntavam se eu estava bem, mas eu estava. Só tensa com aquela agulha em mim, aquele sangue jorrando. Espero que ajude alguém, que o fruto do meu medo seja útil. A pessoa não saberá que o sangue corria nas veias de uma menina que tem medo de agulhas. O que é o medo de agulhas perto de uma vida humana?
E então acabou. Ela tirou a agulha, falou que eu tinha que repousar e dos exames que vão chegar e me mandou de volta ao refeitório. Onde me deram de novo toda aquela enormidade de comida. Forcei-me a comer a sopa, mesmo cheia. Eu não queria passar mal. Li o papel que tinha recebido, ele dizia que, caso eu fosse funcionária pública, estaria livre do trabalho neste dia – é um direito assegurado por lei.
E assim seguiu o dia. Senti-me apenas um pouco fraca nas primeiras horas, mas nada incapacitante. Uma pequena dor no braço da coleta e um orgulho bobo de mim mesma.
Doe sangue. É seguro, não dói, você ganha comida e um dia de folga, sente-se uma espécie de herói e ainda ajuda a salvar vidas.
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