Tenho postado pouco porque tenho trabalhado muito, o que quer dizer que passo o dia todo escrevendo. Tem sido bom - pela primeira vez eu realmente acredito no que estou fazendo academicamente; e dentro de alguns meses, quando o estudo estiver mais maduro, eu pretendo até escrever sobre aqui, em não academiquês.
Por hora, quero apenas falar sobre a escolha de tema de pesquisa. Eu estou na universidade há treze anos; isso quer dizer que eu demorei treze anos, uma mudança de curso, um mestrado e uma mudança de tema no terceiro ano do doutorado para descobrir o que afinal eu gosto de estudar: eu gosto de aplicar ciência para coisas que possam ser usadas diretamente em políticas públicas. Isso não quer dizer que eu não veja valor em ciência e tecnologia básicas; tipo estudar uma bactéria ou fenômeno físico ou social específico, ou sei lá, projetar um foguete. Isso só quer dizer que eu preciso ver uma utilidade social no que eu faço, se não eu simplesmente não consigo fazer. Começar a trabalhar com o que gosto sequer quer dizer que eu agora magicamente tenha parado de procrastinar ou de entrar em pânico; só quer dizer que eu sinto que posso me orgulhar no final dessa jornada.
(Precisamos urgentemente destruir esse mito tão forte entre os cientistas de que a gente faz o que faz por amor e que por isso nossa vida tem que girar ao redor da ciência. A ciência é apenas um dos muitos aspectos da minha vida; e tem que ter Marina para todos eles - especialmente no momento político de franco ataque à ciência que vivemos; é preciso estar forte em todos os aspectos para resistir. E obviamente no meu caso a resistência e a possibilidade de escolha são também um privilégio de cor e classe, e por isso não preciso me punir por culpa cristã dos privilégios, mas preciso estar forte para lutar por todos nós.)
Daí hoje eu só queria dividir com vocês a jornada para achar o que gosto. Não como uma receita, porque acho que é algo muito pessoal; mas como uma troca de experiências mesmo. E esse texto nem deveria estar tão longo porque na verdade a jornada se resume em duas palavras: movimento e raiva.
Movimento porque, mesmo que eu tenha vontade de queimar minha dissertação de mestrado por exemplo, tê-la feita me trouxe até aqui. Lembro da frase do gato da Alice, sobre qualquer caminho servir se você não sabe onde quer ir. Eu sempre encarei como uma crítica a quem não tem certezas; eu sempre me cobrei tanto as certezas. Mas acontece que seguir os caminhos que surgem às vezes ajuda a descobrir as possibilidades lá da frente, e aprender o que é necessário para chegar lá. Tem funcionado para mim, pelo menos. Estou bem longe de ter a vida resolvida, mas agora eu tenho vontade de dar um abraço na Marina de 17 anos perdida tentando escolher o que faria no vestibular e dizer: "calma, vai dar tudo errado, mas vai ser divertido".
E raiva porque eu precisei ver o que mais me irritava na pesquisa que eu fazia para entender o que de fato eu achava importante pesquisar. Ler o livro "O feminismo mudou a ciência?", da Londa Schiebinger, também ajudou por apresentar de forma sistemática e científica algo que no fundo eu sabia sentimentalmente: que todo esse orgulho de engenheira que eu tenho é a admiração pelo poder ligado ao masculino. E eu me oponho ao modo como a sociedade estrutura o poder. Eu já sabia que eu queria fazer uma engenharia diferente; mas o livro me fez perceber que:
1- Eu não estou sozinha querendo mudar o modo de fazer ciência;
2- Descobertas incríveis foram feitas mudando o modo de fazer as perguntas.
Libertador.
(Semana passada tivemos uma discussão bastante interessante na reunião do cursinho popular que eu ajudo a construir, na qual chegamos a esse ponto de mudar o modo como a ciência é pensada. Um dos rapazes alegou que, apesar de suas falhas, a ciência é o melhor que temos, e, com todos os ataques que viemos sofrendo, temos que protegê-la de relativismo e achismo. Concordo. Porém não podemos cair também no erro de por isso não criticar o modo excludente e centrado na masculinidade europeia que a ciência foi estruturada e, especialmente nas exatas, é até hoje reproduzida, estudando apenas saberes que beneficiam algumas pessoas em detrimento de outras e criando mitos de naturalidade que restringem pessoas. É tipo não criticar Belo Monte porque o PT trouxe ganhos sociais inegáveis e a extrema-direita agora está no poder. Temos que reconhecer erros e acertos de tudo e pensar na melhor maneira de fazer as coisas. É possível sempre fazer do jeito que acreditamos ser correto? Não. Devemos achar que o possível hoje é o ideal por isso? Não também. Precisamos de utopias.)
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