Família grande faz com que a genética tenha espaço amostral para se apresentar em toda sua diversidade, e é por isso que quando eu faço avaliação médica e me perguntam se eu tenho caso de alguma doença na família a resposta é sempre "sim" - só varia o quem. Família grande também faz com que tenhamos tudo que é cara que a amazônia permite; e é por isso que por exemplo eu nem acho que eu e a minha irmã nos parecemos - quase 15cm de diferença, ela tão cacheada e eu com cabelo liso escorrido; a sobrancelha dela quase invisível e a minha marcada; aquele bocão que eu também queria ter herdado, mas que deu o azar de precisar daquele chato aparelho adolescente enquanto fui eu que desde os 10 anos uso os óculos. - mas as pessoas quando nos veem dizem que somos é quase iguais. Acontece principalmente no sul-sudeste, "vocês falam igual"; e ninguém comenta, mas eu sei que são os ossos largos, quadris de mulher feita pra ser forte e parir; e os dedos tortos, como que nascidos quebrados, dedos de quem tem por destino a dificuldade de direções.
Da minha prima que mais parece fisicamente comigo, ganhei um susto aos 16 anos. Não dela dela, mas do na época namorado, que estava na sua primeira incursão na família. Ele havia já visto uma foto minha; e dito "que nada, parecem não, você é única, amor". Pois nesse dia o porteiro autorizou ele a subir no prédio do meu tio, ele entrou, avistou a amada sentada ao lado da porta e foi tascar-lhe um beijo; mas a amada não era a amada, era eu. Demos um pulo, cada um para um lado, há poucos centímetros de distância; e essa história já tem quase quinze anos e até hoje é repetida todo Natal.
Hoje eles são casados e tem duas meninas que são as coisas mais mordíveis e aventureiras. Neste ano, quando eu comentei que tinha completado trinta anos, ele me perguntou se eu não queria ter filhos. Eu respondi que não sabia, mas que pelos próximos anos pelos menos não, tem o doutorado, eu sou bolsista, já é difícil pagar o aluguel.
- Quanto tempo anda falta?
- Uns três anos.
- Tem chão ainda, heim.
- Sim. Às vezes dá vontade de desistir e largar tudo, mas eu sigo.
- Ah, fica tranquila. Essa vontade não passa nunca.
Rimos. Não há consolo melhor que o vazio.
Não sei se quero ter filhos, mas comentei com o namorado que o triste seria apenas não ter pra quem ficar repetindo a história de como nos conhecemos. Eu mesma já tenho várias versões dela; a duração e a poesia depende do interlocutor. A história de como duas pessoas se conheceram pode se resumir a uma troca de nomes; mas eu gosto de contar a história de dois momentos de vida; e dizer que era primavera e estava frio.
Ele disse que via uma vantagem e não contar e recontar porque era chato ficar ouvindo a mesma história. Meus pais tem algumas clássicas que eu gosto e outras que não - as que não geralmente são histórias cuja minha versão é outra. Mas ontem meu pai me contou uma que era nova, da época que ele era contratado para fazer projetos de rádios e levava calotes. Pois anos depois ele mudou-se para o Rio de Janeiro e foi contactado, sabe Deus como, por um desses ricos influente interioranos que estava comprando por baixo dos panos uma concessão de rádio cujo projeto ele tinha feito e precisava de uma assinatura dele. Quando o rico soube que ele não tinha sido pago e que seu projeto não tinha sido executado, resolveu pagar ele próprio. Pagou passagem para levar meu pai para o interior do Pará e ele ficou na casa que ele morava com as duas mulheres e os filhos - além delas, ele era amante de uma cantora de garimpo. Com o dinheiro que meu pai ganhou ele construiu uma caixa d'água para acabar com as faltas d'água da casa da minha avó, levou minha mãe para passar o dia dos pais em Belém e pagou dois churrascos.
Meus pais nunca souberam guarda dinheiro, mas eles sabem se divertir.
terça-feira, 17 de julho de 2018
Histórias
Rabiscado por
Marina
às
12:11
Temática(s): Colecionando Causos
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