segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Redação sobre as férias - parte 2

Todo 25 de dezembro eu acordo com gosto de excessos, lavo a maquiagem borrada da cara, tomo um banho, ponho um short e vou pra Bragança. A chegada tem marujos vestidos de azul. Eu só tenho a saia vermelha do dia 26, e o chapéu dourado com fitas tem o peso da minha linhagem cabocla. Nortista.
Neste ano, entre passos de dança e conversa familiar ao som da banda Furiosa no coreto em cima do Rex Bar, descobri várias coisas. Por exemplo: que a família do pai do meu pai veio lá do Ceará. Esse fato pode parecer trivial, mas não me é, porque sofro de excesso de apego e vejo minha vida como um barco num rio grande como o Amazonas, um rio sem margem. A questão é que só sei em que ponto estou do rio, não qual meu destino; aí saber as paragens que foram feitas antes de eu nascer ajudam a pensar se vale mais a pena voltar ou seguir em frente. A cidade da minha infância já me pareceu o único porto possível, guardando meu futuro e meu passado na mesma mala molhada de chuva. Mas essa cidade não mais existe, assim como não existe a mala... Tudo o que existe é o rio sem margens, e a ideia de uma infinidade de portos. Sou feita de partidas e chegadas, e as raízes brotam dos meus pés. O chapéu tem o peso de toda minha genealogia, mas a primeira a usá-la foi a minha avó. Minhas origens estão no big bang e no dia de ontem; e o futuro é aquele momento em que abrirei os olhos depois desta rápida piscadela - o que me garante que ainda haverá mundo? Sinto em mim a magia de todas as mulheres e acredito em previsão de futuro como quando estou andando na rua e vem alguém na minha direção: sei que trombaremos se continuar em frente, mas nada me garante que não desviaremos os dois para o mesmo lado e trombaremos inevitavelmente. Só posso controlar meus passos nessa dança de calçada, e torcer pra, se der errado, a gente não se machucar na colisão.
Sou de Belém, e antes de Bragança e do Ceará. Sou também do Amazonas. Descobri que tive um tio-bisavô que escrevia poemas em guarani. Meus cabelos lisos estão negros e começando a ficar compridos como eu não deixava desde minha adolescência, numa tentativa de espelho e resgate de identidade. Sangue indígena derramado, sangue indígena nas minhas veias. Houve um dia em que bebi demais e o carimbó da Dona Onete me trouxe a visão clara de entorpecente, o sentimento que eu podia conversar com minha futura linhagem que eu nem sei se terei. Disse-lhe para extrair essa força de tambor, agora sei que sou daquelas espécies com sementes que parecem algodão e que o vento vai levando até descobrirmos o melhor lugar para brotar.

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