terça-feira, 9 de maio de 2017

E nem rende um poema

Peço desculpas a quem me lê pelo atraso no post. Estava muito ocupada em crises de existência que ainda não consegui materializar em palavras.
Me é muito raro não conseguir materializar algo em palavras.
Prefiro sofrer por amor romântico. É mais fácil. Os textos ficam mais bonitos. Às vezes acho que me apaixono só para escrever uma meia dúzia de poemas.
Ainda espero um "eu te amo".
Mas agora, ah, agora, eu quero mais é que se foda.
Toda a glorificação meritocrática de "superar algo difícil". Acho que, enquanto humanidade, a gente realmente se esforça pra tornar as coisas piores.
Estou exausta.
E olha que eu levo a vida no modo easy. Classe média, branca, essas coisas. Viver é um exercício de empatia, mas eu nunca vou saber o que é ter uma existência realmente fodida.
E, ainda assim, estou exausta.
Tudo parece tão certo que irrita. Consegui o doutorado. Consegui a bolsa. A cidade é tão bonita que num dia em que eu estava particularmente puta me surgiu a porra de um arco-íris sobre o mar; daqueles tão nítidos que parecem pintados com lápis de cor e que você vê onde começa e onde termina, o arco todo. As pessoas são gentis comigo. Como eu posso não estar feliz?
Eu não me sinto parte da cidade. Eu não sei quando eu vou me sentir parte da cidade. Uma hora vai acontecer, mas, enquanto não acontece, eu me sinto sozinha.
Eu não me sinto parte de lugar nenhum, na verdade; e isso é desesperador.
Eu saí da casa dos meus pais com vinte anos, eu moro sozinha há três anos, eu já viajei mais de mês sozinha. Eu me divirto sozinha, eu tomo porre sozinha, eu sei me virar.
Saber me virar é um saco.
Eu só queria um abraço e alguém pra quem eu não tivesse que contar as mesmas cinco histórias razoavelmente engraçadas porém absolutamente batidas que eu conto sobre mim mesma quando quero quebrar o gelo.
Eu só queria deitar nessa cama e não levantar mais. E não espere que eu responda as mensagens.
Eu só queria achar que o que eu estou fazendo não é uma gigantesca perda de tempo - passar horas ansiosa estudando particularidades da engenharia enquanto o país está do avesso, para passar duas horas trancada em uma sala resolvendo problemas já resolvidos milhares de vezes sob o risco de ficar sem bolsa e sem doutorado e portanto mais uma vez sem rumo na vida se eu não lembrar como se resolve algo que eu poderia checar facilmente em qualquer mundo minimamente real. E se tudo der certo e eu passar dessa fase, tem outra e mais outra; e por fim eu vou trabalhar numa particularidade de combustível renovável e, quem eu quero enganar, eu posso fazer carro movido a bons pensamentos e ainda assim enquanto humanidade a gente vai continuar destruindo a porra toda se não mudar nosso padrão de consumo. Vou escrever uns papers para plataformas pagas em uma língua que não é a minha e é isso.
E nem rende um poema.

Nenhum comentário: