Parei para contar e esta é minha décima terceira casa. Não sei se quero invocar-te, oh numerologia.
É a sexta cidade onde moro. Pergunto-me se a próxima me será sábado; pergunto-me se mirei e acertei a cesta; pergunto-me o sentido.
Em cada mala que fiz, uma busca - um amor, uma aventura, uma formação, um título.
Cada partida é uma feira de desapego de doações, vendas e lixo. Ainda assim, minhas malas estão cada vez maiores, e na verdade acho que é bom. Carrego peso e não pesar.
Cada viagem era uma procura e em cada chegada eu me sinto perdida.
Sinto-me girassol e de tanto girar fiquei tonta.
Vou virar fritura barata.
O sol gira e gira e a grama do vizinho... bem, tenho que lembrar que tem a porra da mesma iluminação e solo que a minha.
O chão sob meus pés não é meu. Nunca foi, nenhum chão.
Sinto-me buquê e temo murchar em três dias assim sem raiz.
Bela e seca.
Prefiro-me muda, mas com voz.
Tenho em mim a dita leveza duma geração: programa de milhagem, carimbo no passaporte, aplicativo de carona e uma solidão que me segue, como me segue tudo o que é meu.
Há quem diga que viagens e mudanças mudam tudo em nós, e há quem diga isso é falatório geração y e que na verdade estamos fadados a sermos sempre nós mesmos. E o que conclui e que todos estão absolutamente certos.
Poderia fugir para a lua, e o chão da lua teria meu olhar astigmata. Todo lugar onde eu for terá minha visão borrada de astigmatismo. Invariavelmente meu universo vai comigo, e não há gps de alma. É tão clichê e óbvio, tão óbvio; não importa o quão longe se vá, é impossível fugir de si.
Eu não precisava ir embora da cidade onde eu estava para mudar ou resolver várias coisas, mas eu não perceberia que não precisava ter ido embora se não tivesse ido embora, e portanto não as teria mudado ou resolvido. Paradoxo da partida.
Mudanças externas não mudam em absolutamente nada o que temos interno, mas nos tiram da zona de conforto. Sair da zona de conforto força a encarar os problemas de outra maneira, e isso muda a gente. Mas dói, e não é rápido como uma viagem de carro ou avião.
Ir embora me despiu de desculpas internas que eu nem sabia que eu tinha:
- Tá vendo esse problema, Marina? Ele é seu, só seu, e independe de geografia.
E cá estamos nós novamente. Eu e várias sessões de terapia marcadas para, como uma grande amiga me disse, transformar a solidão em solitude.
Meu cabelo, marca característica das minhas indecisões, cresce livremente intocado há cinco meses já, recorde dos últimos anos.
Cresce feito capim, enquanto me planto e enraízo em mim.
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