segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Relato de viagem: Santarém e um tequinho de Belterra


Fui passar cinco dias em Santarém – de quarta da semana passada até hoje 5:50h. Totalmente despretensiosa -  meus pais haviam sido convidados para serem padrinhos em um casamento de um orientado do meu pai; e, de férias que estou com os amigos viajando como virou costume, entre fazer nada em Belém e fazer nada em Santarém, lá fui eu. Minha irmã completou a viagem de família. E o passeio superou todas as expectativas (superaria mesmo se eu tivesse alguma). Merece post enorme, ilustrado com as fotos que eu tirei.



Por do sol em Ponta de Pedra



Não foi minha primeira ida a Santarém, mas já fazia tempos da última e eu não lembrava de muita coisa da cidade.  O percurso Belém-Santarém pode durar uns cinco dias de barco, dois de carro ou uma hora de avião. Fomos de avião, e apesar do espírito de aventura envolvido (ou talvez por ele) eu fiquei com vontade de experimentar os outros transportes. Estava quente e claro apesar das nuvens quando chegamos no meio da tarde ao aeroporto minúsculo. Descemos pela escada do avião e fomos caminhando até a sala de desembarque, passando por baixo da placa “Santarém” dando boas vindas como em uma estrada. Eu estava bem humorada e gostei daquilo.
Papai foi pegar o carro alugado enquanto eu, mamãe e minha irmã ficamos pegando as bagagens na esteira. Caótico. Mal cabíamos na sala, que dirá conseguir olhar as bagagens rolando... Mas logo resgatamos os volumes e entramos no carro rumo ao hotel (não sem antes eu passar a grande vergonha de abrir a porta de um meriva e quase entrar se não tivesse sido chamada entre gritos e risadas. Alugamos um golzinho). Papai conhece a cidade e dirigia.
No caminho entre o aeroporto e o centro da cidade passamos por trecho de floresta em pé e um enorme descampado com a placa “Cidade Jardim”. Pelo que conversamos com as pessoas da cidade, a obra está embargada porque não tinha a licença ambiental adequada. Fato é que a floresta já estava no chão. Do outro lado da rua, várias casinhas do programa “minha casa, minha vida”.  E assim eu já cheguei dando de cara com os dilemas desenvolvimento x preservação; e o condomínio fechado x construções populares. Como fugir?
Santarém é uma grande cidade pequena, com nenhum prédio e ruas largas de asfalto mal- cuidado, espalhada entre inebriante floresta e o lindíssimo rio Tapajós - ele que banha as praias, dá o apelido à cidade e batiza as tentativas de separação do Pará: Santarém, a pérola do Tapajós. Santarém, capital do estado do Tapajós. Eu fiquei lembrando daquela música do Skank: “ Se o país não for pra cada um/ Pode estar certo/ Não vai ser pra nenhum...”.  Havia pela cidade vários resquícios da campanha pelo “Sim”, pela divisão do estado; e conversando com vendedores na feira e cuidadores de museu sentimos um desapontamento ao ouvir que éramos de Belém. Supunham-nos Manauaras, aparentemente amazonenses são mais queridos por aquelas bandas (de avião a distância é a mesma, dos outros meios de transporte eu não sei). E não se pode culpa-los, se muitos governadores trabalham pela região metropolitana de Belém, em um estado tão grande que se viaja de avião para lugares que não são extremos.





O município tem trezentos mil habitantes (o que é gente pra caramba); shopping center com cinema (o que aos paulistas pode soar um comentário banal; mas Belém, capital, só ganhou o terceiro shopping há uns cinco anos, o quarto ano passado. Se minhas contas não estão erradas, temos menos de trinta salas de cinema na cidade inteira, e somos 1,5 milhão de habitantes); duas universidades públicas (a estadual UEPA e a federal UFOPA – e com todo respeito eu nunca vou deixar de achar UFOPA um nome engraçado, porque o UFO me faz pensar em alienígenas.), sendo que a federal tem programa de doutorado. Estava em dia de listão quando passamos lá, pessoas amontoadas vendo  nomes pregados em paredes enquanto um computador tocava “alô papai alô mamãe” em mp3 e não na vitrola.


Listão em Santarém, ao som de alô papai, alô mamãe. Aos não paraenses: essa é nossa música de comemoração de aprovação o vestibular



Deixando um pouco a sociologia de lado, voltemos para o turismo.
Ficamos no Hotel Barrudada, gigante em recuperação de abandono, com corredores tão longos que mamãe brincou que precisaríamos de transfer entre nossos quartos; cama gigantesca em quarto muito confortável, sinal de internet deplorável que nem nos quartos chegava, café da manhã majestoso mas sem frutas típicas, uma gigantesca piscina e uma infestação de grilos que parecia tomar a cidade – uma noite meus pais acordaram com um grilo na cama. Toda noite chegávamos em meio a uma festa de formatura no hotel, o que era engraçado, tendo em vista nossos cabelos amassados, corpos suados e roupas molhadas e sujas de areia.
No primeiro dia fomos almoçar no restaurante Rayana, onde comemos bolinhos de piracuí (para quem não sabe, piracuí é uma farinha de peixe torrado. Se tiver que comparar os bolinhos a alguma coisa, comparo a bolinho de bacalhau. Mas é diferente), tucunaré de forno e pudim de leite, enquanto assistíamos o começo de “Para Sempre Cinderella” na Sessão da Tarde. Um bom começo de viagem.
Visitamos as praias de Ponta de Pedra (onde um por do sol deslumbrante garantiu minhas fotos mais bonitas), Alter do Chão (eleita em 2009 pelo jornal inglês Guardian a praia mais bonita do Brasil), Pindobal  a Aramanaí (essa última fica em Belterra). 






 Algumas das minhas fotos bonitas de ponta de pedra



Visitamos o mercado, com peixes e artesanato. Comprei uma bolsinha de palha:
- Quanto custa?
- R$7.
Me deu vergonha de pagar tão pouco pelo trabalho dela.
Vimos os barcos no porto, o rio. Comemos queijo coalho. E vi os táxis – vermelhos, os Santarém city cabs.







Para Alter do Chão fomos duas vezes, uma de dia, outra de noite. Não bati nenhuma das tradicionais fotos da faixa de areia, então a quem não conhece, vai aqui a descrição – Alter de Chão é uma praia de rio (aqui no Pará nós temos muitas praias de rio) que surge na época do ano em que o Tapajós baixa, uma faixa de areia no meio do rio. Quando o rio está realmente seco, pode-se atravessar andando; quando não, basta pagar um barqueiro. Agora o rio estava enchendo, então eu e meu pai fomos andando com água até o pescoço enquanto minha mãe e minha irmã foram de canoa para levar nossas mochilas. Preço do translado? Uma fortuna – R$3,00. Total até 4 pessoas, não por cabeça.
A época é de baixa temporada, então os barraqueiros se revezam.  Comemos bolinho de piracuí), tambaqui assado (que os barraqueiros estocam com nota fiscal e certificação do IBAMA, para poder vender em época de defeso), banana chips (frita e com sal feito batata, mas banana) e monteiro lopes recheado de doce de cupuaçu . Tomamos banho no Tapajós e torramos no sol. Ficamos tristes de ver plástico no chão da praia. Nos divertimos.



Um pouco de Alter do Chão

Quando atravessamos de volta para a praça em frente a praia, a má surpresa – o pneu do nosso carro havia furado. Na hora de trocar, a segunda má surpresa – o step também estava furado! Oh-oh.  Alter do Chão é praia afastada. Hora de ligar para a locadora. Enquanto telefonávamos, encontramos os noivos, arrumados e com câimbra de tanto sorrir segundo o noivo disse, batendo fotos para o casório. A noiva nem voz mais tinha, e estava linda.
- Querem um conselho? – sussurrou arranhado pra mim e pra minha irmã. – Não casem. Só no papelzinho mesmo. Dá muito trabalho!
Como acreditar num conselho desses? Patriarcado, nessa você me pegou de jeito. Sim, eu sonho em casar (e não, não tem nada de errado nisso).
Meus pais pegaram emprestado o carro do noivo e foram em busca de uma borracharia para consertar o step, enquanto os noivos voltaram para a sessão de fotos na praia no fim da tarde (que é quando a luz é mais bonita) e eu e minha irmã, que não éramos de grande ajuda, ficamos passeando por Alter. Ficamos surpresas com a gringalhada espalhada – todos com aquele ar saudável e bronzeado bonito – e foi quando soubemos que a praia é bem mais famosa do que achávamos. Nos sentamos para tomar um suco em uma loja chamada Arco-íris da Amazônia, que tem uma lanchonete com cardápio com tradução em inglês. A casa de turismo ao lado também aparentava ser bilíngue.  Passeamos pelas lojinhas de artesanato e vimos bijuterias, lembrancinhas e divertidos instrumentos musicais feitos de látex, metal, barro, palha, jarina e outras sementes. Tudo encantador. Até que vimos um filhotinho de gato andando no meio da praça, e quando estávamos chegando perto num movimento “aaaaaaaaawn”, ouvimos as cantadas:
- Oi, meu  anjo... meu anjo, você é linda que nem o gatinho. Ele é meu, quer o telefone?
Pqp. Sério mesmo? Me afastei calada, pensando que eu não tenho que ouvir essas coisas, nem me sentir intimidada como me senti. Patriarcado, você é uma droga.
Passeamos mais, e então meus pais voltaram. Resolvido o problema do pneu, voltamos para Santarém, não sem antes passar na locadora e ser tão bem atendido – de noite! – que nem deu vontade de brigar. O golzinho foi trocado por um novo uno.
Mais tarde naquela noite, fomos (minha família, e mais orientados do meu pai que estavam no hotel) jantar no Mutunuy, um restaurante famoso, antigo e bonito (uma espécie de clube) que vende galeto assado na manteiga, porção individual. E no dia seguinte foi a ida a Belterra.
Fomos por dentro, por uma estrada de barro. Rally, e linda com árvores gigantescas. E um pedaço devastado para soja, por gente que nem de lá ou daqui é. Ah, soja!








Belterra é uma cidade pequena, e o clima é diferente de tão incrustada no mato. É mais fresca. Possui uma história interessante (ou talvez bizarra): foi criada para produzir borracha para a Ford. Cidade de casinhas iguais, em modelo americano. Com hidrantes.




Em Belterra fomos na praia de Aramanaí, e as pessoas não paravam de repetir a piadinha do nome da praia:
- Duas mulheres foram à praia. Uma delas queria mijar – (mijar, que palavra horrível. Eu falo palavrão, mas acho “mijar” muito feio) – e não sabia onde. Aí a outra respondeu “Ara, mana, aí!”
A praia é muito bonita e tem um igarapé desaguando no Tapajós – algo que eu nunca tinha visto, foz de igarapé. Dava pra sentir a mudança da temperatura da água – do gelado típico de igarapé à temperatura amena do rio. De novo, triste ver sujeira (Não estava imundo, nenhum dos lugares estava. É só triste ver copos plásticos jogados no chão em lugares assim). Mas ainda assim, tudo lindo. Com uma enorme montanha verde atrás.



Saímos de Aramanaí e fomos para Pindobal por mais estrada de terra seguindo as orientações da simpática barraqueira. No caminho, depois de algumas bifurcações suspeitas,  pedimos orientações para umas pessoas em uma barzinho, que disseram que estávamos no caminho errado. Retornamos.  Pedimos orientações para um pessoal de moto que mandou a gente de volta ao barzinho. Que queria mandar a gente de volta a moto. E nisso o pneu do outro carro (o dos orientados do meu pai) furou. Êita aventura de pneu! Dessa vez pelo menos o step estava ok. E acaba que estávamos desde o início no caminho certo, e um motociclista do pessoal do bar guiou a gente até a praia. Disseram que tem dias que ela é barulhenta demais, mas estava linda, com água parada feito piscina e botos nadando no fundo.
Depois do por do sol os amigos do papai foram para o hotel e nós fomos para Alter. Mamãe queria um café. Sentamos de novo no restaurante do Arco-Íris da Amazônia, rimos ao ver que vendia açaí com tapioca, farinha d’água ou granola (para paraenses, o que se vende em São Paulo não é açaí, e granola com açaí é pecado. Mas se o lugar é ponto turístico...). Acessamos  a internet livre do programa Navega Pará (disponível também em outros pontos da cidade). Fomos atendidos por uma mocinha muito simpática e um tantinho atrapalhada, com um sotaque diferente:
- Desculpa gente, eu não sei. É meu segundo final de semana trabalhando aqui!
Pedimos caipirinhas.  Começou uma música boa.  Começamos a dançar. Mais caipirinhas. Conversamos mais com a Jenny, a garçonete. E descobrimos que ela é paulista. Que já foi pra Nova York. Que está em Alter escrevendo um livro, algo como “Duas semanas de Amor”. Pedimos mais caipirinhas, e uma dose de tequila pra dividir. E eu já não queria mais voltar para Unicamp. Eu iria ficar em Alter do Chão vendo a água ir e vir, conhecendo gente nova de todos os cantos, trabalhando e escrevendo um livro, que nem a Jenny.
Ainda vou comprar o livro dela.
A música acabou e a gente não queria voltar pro hotel. Fomos parar em um forró pé de serra, onde dançamos descalços no chão de areia. Voltamos do café em Alter do Chão às três da manhã.
O dia seguinte foi o dia do casamento. Acordamos tarde, passeamos um pouco no centro da cidade (típico centrão com lojas e casas antigas), fomos ao centro cultural – uma casa antiga com a academia de letras de Santarém; os ossos de uma baleia mink que se perdeu por aquelas bandas  e acabou morrendo – a baleia que mais entrou em água interioranas, pelo que se tem notícia; cerâmica tapajônica; quadros e algumas antiguidades. Me chamaram atenção as cores do lugar; amarelo, vermelho e verde, num colorido muito vivo e diferente do que a gente geralmente encontra nesses lugares. Achei bonito. Conversamos com seu Laurimar, lenda viva e responsável por pintar muitos dos quadros das autoridades, hoje cego. E com Apolinário, o novo pintor de retratos com opiniões sobre tudo, dizendo que a violência é característica do ser humano, e teorizando muito adequadamente sobre o aumento da violência em cidades grandes amazônicas causada pelos fluxos migratórios interioranos.








Fomos almoçar no restaurante Casa de Saulo, que considero parada obrigatória na cidade. Era de fato a casa do tal do Saulo, que de tanto abri-la para festas resolveu fazer um restaurante. O lugar é escondido (mais estrada de terra, dessa vez areia mesmo entre as árvores), e lindo. Uma casa no alto de uma colina, com uma piscininha e uma parte com mesas cobertas com teto de palha. Embaixo, praia. Ao redor, floresta. Mais uma vez, lindo. E a comida estava ótima, dos sucos naturais ao pirarucu recheado de banana.




Voltamos para casa no final da tarde, para cochilar e nos arrumar para a festa – maquiagem, vestido e paletó. O noivo se arrumou no hotel, nervoso até a raiz dos cabelos. Quando saímos para o casamento, outro casamento começava no hotel. E foi a primeira noite na qual chegamos e não interrompemos festa nenhuma. Eram 5:30h da manhã.
O casamento foi lindo. E nós (família, amigos) dançamos e pulamos cinco horas sem parar. Saímos do salão depois dos noivos, correndo suados em roupas de festa debaixo de chuva. E eu percebi que é isso que eu quero pra minha vida – ser a pessoas chata que fecha festas e chega em casa encharcada. Se eu fizer isso uma vez por mês, meu ano valeu a pena.
No dia seguinte ainda teve almoço em um sítio. Eu estava morta. Os noivos estavam exaustos e felizes – ela manteve o conselho, com cabelo lindo, lipoescultura e unhas de silicone.  Eu e minha irmã terminamos a noite comendo yakissoba caribenha entregue por um restaurante mexicano (uma delícia, por sinal, com banana caramelada – a primeira eu comi achando que era calabresa! – e abacate. Não achava que funcionaria até comer) e assistindo big brother e a entrega do globo de ouro na TV. E expulsando um grilo que ainda entrou no nosso quarto.
Hoje de manhã o aeroporto pequeno era um charme. Toda a cidade era um charme. Todos os voos do dia cabiam com folga em uma tela da Infraero, e achei aconchegante. Soube que estão ampliando o aeroporto e achei ótimo também.
Embarcamos debaixo de chuva – pelo jeito uma tradição, a chuva das 5h. Andando com pequenininhos guarda-chuvas da TAM até o avião.
Santarém, eu recomendo e vou voltar.


Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo Marina, eu amo Santarém!
Meu pai nasceu lá e eu fui varias vezes. Já levei a Esther, ela amou Alter mas era pequena, nem deve lembrar.
Adorei, vou guardar as dicas para a proxima!
bjs
Suzy