Fui passar cinco dias em Santarém – de quarta da semana
passada até hoje 5:50h. Totalmente despretensiosa - meus pais haviam sido convidados para serem
padrinhos em um casamento de um orientado do meu pai; e, de férias que estou
com os amigos viajando como virou costume, entre fazer nada em Belém e fazer
nada em Santarém, lá fui eu. Minha irmã completou a viagem de família. E o
passeio superou todas as expectativas (superaria mesmo se eu tivesse alguma).
Merece post enorme, ilustrado com as fotos que eu tirei.
Por do sol em Ponta de Pedra
Não foi minha primeira ida a Santarém, mas já fazia tempos
da última e eu não lembrava de muita coisa da cidade. O percurso Belém-Santarém pode durar uns cinco
dias de barco, dois de carro ou uma hora de avião. Fomos de avião, e apesar do
espírito de aventura envolvido (ou talvez por ele) eu fiquei com vontade de
experimentar os outros transportes. Estava quente e claro apesar das nuvens
quando chegamos no meio da tarde ao aeroporto minúsculo. Descemos pela escada
do avião e fomos caminhando até a sala de desembarque, passando por baixo da
placa “Santarém” dando boas vindas como em uma estrada. Eu estava bem humorada
e gostei daquilo.
Papai foi pegar o carro alugado enquanto eu, mamãe e minha
irmã ficamos pegando as bagagens na esteira. Caótico. Mal cabíamos na sala, que
dirá conseguir olhar as bagagens rolando... Mas logo resgatamos os volumes e
entramos no carro rumo ao hotel (não sem antes eu passar a grande vergonha de
abrir a porta de um meriva e quase entrar se não tivesse sido chamada entre
gritos e risadas. Alugamos um golzinho). Papai conhece a cidade e dirigia.
No caminho entre o aeroporto e o centro da cidade passamos
por trecho de floresta em pé e um enorme descampado com a placa “Cidade Jardim”.
Pelo que conversamos com as pessoas da cidade, a obra está embargada porque não
tinha a licença ambiental adequada. Fato é que a floresta já estava no chão. Do
outro lado da rua, várias casinhas do programa “minha casa, minha vida”. E assim eu já cheguei dando de cara com os
dilemas desenvolvimento x preservação; e o condomínio fechado x construções
populares. Como fugir?
Santarém é uma grande cidade pequena, com nenhum prédio e
ruas largas de asfalto mal- cuidado, espalhada entre inebriante floresta e o
lindíssimo rio Tapajós - ele que banha as praias, dá o apelido à cidade e
batiza as tentativas de separação do Pará: Santarém, a pérola do Tapajós.
Santarém, capital do estado do Tapajós. Eu fiquei lembrando daquela música do
Skank: “ Se o país não for pra cada um/ Pode estar certo/ Não vai ser pra
nenhum...”. Havia pela cidade vários
resquícios da campanha pelo “Sim”, pela divisão do estado; e conversando com
vendedores na feira e cuidadores de museu sentimos um desapontamento ao ouvir
que éramos de Belém. Supunham-nos Manauaras, aparentemente amazonenses são mais
queridos por aquelas bandas (de avião a distância é a mesma, dos outros meios
de transporte eu não sei). E não se pode culpa-los, se muitos governadores
trabalham pela região metropolitana de Belém, em um estado tão grande que se
viaja de avião para lugares que não são extremos.
O município tem trezentos mil habitantes (o que é gente pra
caramba); shopping center com cinema (o que aos paulistas pode soar um
comentário banal; mas Belém, capital, só ganhou o terceiro shopping há uns
cinco anos, o quarto ano passado. Se minhas contas não estão erradas, temos
menos de trinta salas de cinema na cidade inteira, e somos 1,5 milhão de
habitantes); duas universidades públicas (a estadual UEPA e a federal UFOPA – e
com todo respeito eu nunca vou deixar de achar UFOPA um nome engraçado, porque
o UFO me faz pensar em alienígenas.), sendo que a federal tem programa de
doutorado. Estava em dia de listão quando passamos lá, pessoas amontoadas vendo
nomes pregados em paredes enquanto um
computador tocava “alô papai alô mamãe” em mp3 e não na vitrola.
Listão em Santarém, ao som de alô papai, alô mamãe. Aos não
paraenses: essa é nossa música de comemoração de aprovação o vestibular
Deixando um pouco a sociologia de lado, voltemos para o
turismo.
Ficamos no Hotel Barrudada, gigante em recuperação de
abandono, com corredores tão longos que mamãe brincou que precisaríamos de
transfer entre nossos quartos; cama gigantesca em quarto muito confortável,
sinal de internet deplorável que nem nos quartos chegava, café da manhã
majestoso mas sem frutas típicas, uma gigantesca piscina e uma infestação de
grilos que parecia tomar a cidade – uma noite meus pais acordaram com um grilo
na cama. Toda noite chegávamos em meio a uma festa de formatura no hotel, o que
era engraçado, tendo em vista nossos cabelos amassados, corpos suados e roupas
molhadas e sujas de areia.
No primeiro dia fomos almoçar no restaurante Rayana, onde
comemos bolinhos de piracuí (para quem não sabe, piracuí é uma farinha de peixe
torrado. Se tiver que comparar os bolinhos a alguma coisa, comparo a bolinho de
bacalhau. Mas é diferente), tucunaré de forno e pudim de leite, enquanto
assistíamos o começo de “Para Sempre Cinderella” na Sessão da Tarde. Um bom
começo de viagem.
Visitamos as praias de Ponta de Pedra (onde um por do sol
deslumbrante garantiu minhas fotos mais bonitas), Alter do Chão (eleita em 2009
pelo jornal inglês Guardian a praia mais bonita do Brasil), Pindobal a Aramanaí (essa última fica em Belterra).
Algumas das minhas fotos bonitas de ponta de pedra
Visitamos o mercado, com peixes e artesanato. Comprei uma
bolsinha de palha:
- Quanto custa?
- R$7.
Me deu vergonha de pagar tão pouco pelo trabalho dela.
Vimos os barcos no porto, o rio. Comemos queijo coalho. E vi
os táxis – vermelhos, os Santarém city cabs.
Para Alter do Chão fomos duas vezes, uma de dia, outra de
noite. Não bati nenhuma das tradicionais fotos da faixa de areia, então a quem
não conhece, vai aqui a descrição – Alter de Chão é uma praia de rio (aqui no Pará
nós temos muitas praias de rio) que surge na época do ano em que o Tapajós
baixa, uma faixa de areia no meio do rio. Quando o rio está realmente seco,
pode-se atravessar andando; quando não, basta pagar um barqueiro. Agora o rio
estava enchendo, então eu e meu pai fomos andando com água até o pescoço
enquanto minha mãe e minha irmã foram de canoa para levar nossas mochilas.
Preço do translado? Uma fortuna – R$3,00. Total até 4 pessoas, não por cabeça.
A época é de baixa temporada, então os barraqueiros se
revezam. Comemos bolinho de piracuí), tambaqui
assado (que os barraqueiros estocam com nota fiscal e certificação do IBAMA,
para poder vender em época de defeso), banana chips (frita e com sal feito
batata, mas banana) e monteiro lopes recheado de doce de cupuaçu . Tomamos
banho no Tapajós e torramos no sol. Ficamos tristes de ver plástico no chão da
praia. Nos divertimos.
Um pouco de Alter do Chão
Quando atravessamos de volta para a praça em frente a praia,
a má surpresa – o pneu do nosso carro havia furado. Na hora de trocar, a
segunda má surpresa – o step também estava furado! Oh-oh. Alter do Chão é praia afastada. Hora de ligar
para a locadora. Enquanto telefonávamos, encontramos os noivos, arrumados e com
câimbra de tanto sorrir segundo o noivo disse, batendo fotos para o casório. A
noiva nem voz mais tinha, e estava linda.
- Querem um conselho? – sussurrou arranhado pra mim e pra
minha irmã. – Não casem. Só no papelzinho mesmo. Dá muito trabalho!
Como acreditar num conselho desses? Patriarcado, nessa você
me pegou de jeito. Sim, eu sonho em casar (e não, não tem nada de errado
nisso).
Meus pais pegaram emprestado o carro do noivo e foram em
busca de uma borracharia para consertar o step, enquanto os noivos voltaram
para a sessão de fotos na praia no fim da tarde (que é quando a luz é mais
bonita) e eu e minha irmã, que não éramos de grande ajuda, ficamos passeando
por Alter. Ficamos surpresas com a gringalhada espalhada – todos com aquele ar
saudável e bronzeado bonito – e foi quando soubemos que a praia é bem mais
famosa do que achávamos. Nos sentamos para tomar um suco em uma loja chamada
Arco-íris da Amazônia, que tem uma lanchonete com cardápio com tradução em
inglês. A casa de turismo ao lado também aparentava ser bilíngue. Passeamos pelas lojinhas de artesanato e vimos
bijuterias, lembrancinhas e divertidos instrumentos musicais feitos de látex,
metal, barro, palha, jarina e outras sementes. Tudo encantador. Até que vimos
um filhotinho de gato andando no meio da praça, e quando estávamos chegando
perto num movimento “aaaaaaaaawn”, ouvimos as cantadas:
- Oi, meu anjo... meu
anjo, você é linda que nem o gatinho. Ele é meu, quer o telefone?
Pqp. Sério mesmo? Me afastei calada, pensando que eu não
tenho que ouvir essas coisas, nem me sentir intimidada como me senti. Patriarcado,
você é uma droga.
Passeamos mais, e então meus pais voltaram. Resolvido o
problema do pneu, voltamos para Santarém, não sem antes passar na locadora e
ser tão bem atendido – de noite! – que nem deu vontade de brigar. O golzinho
foi trocado por um novo uno.
Mais tarde naquela noite, fomos (minha família, e mais
orientados do meu pai que estavam no hotel) jantar no Mutunuy, um restaurante
famoso, antigo e bonito (uma espécie de clube) que vende galeto assado na
manteiga, porção individual. E no dia seguinte foi a ida a Belterra.
Fomos por dentro, por uma estrada de barro. Rally, e linda
com árvores gigantescas. E um pedaço devastado para soja, por gente que nem de
lá ou daqui é. Ah, soja!
Belterra é uma cidade pequena, e o clima é diferente de tão
incrustada no mato. É mais fresca. Possui uma história interessante (ou talvez
bizarra): foi criada para produzir borracha para a Ford. Cidade de casinhas
iguais, em modelo americano. Com hidrantes.
Em Belterra fomos na praia de Aramanaí, e as pessoas não
paravam de repetir a piadinha do nome da praia:
- Duas mulheres foram à praia. Uma delas queria mijar –
(mijar, que palavra horrível. Eu falo palavrão, mas acho “mijar” muito feio) –
e não sabia onde. Aí a outra respondeu “Ara, mana, aí!”
A praia é muito bonita e tem um igarapé desaguando no
Tapajós – algo que eu nunca tinha visto, foz de igarapé. Dava pra sentir a
mudança da temperatura da água – do gelado típico de igarapé à temperatura
amena do rio. De novo, triste ver sujeira (Não estava imundo, nenhum dos lugares
estava. É só triste ver copos plásticos jogados no chão em lugares assim). Mas
ainda assim, tudo lindo. Com uma enorme montanha verde atrás.
Saímos de Aramanaí e fomos para Pindobal por mais estrada de
terra seguindo as orientações da simpática barraqueira. No caminho, depois de
algumas bifurcações suspeitas, pedimos
orientações para umas pessoas em uma barzinho, que disseram que estávamos no
caminho errado. Retornamos. Pedimos
orientações para um pessoal de moto que mandou a gente de volta ao barzinho.
Que queria mandar a gente de volta a moto. E nisso o pneu do outro carro (o dos
orientados do meu pai) furou. Êita aventura de pneu! Dessa vez pelo menos o
step estava ok. E acaba que estávamos desde o início no caminho certo, e um
motociclista do pessoal do bar guiou a gente até a praia. Disseram que tem dias
que ela é barulhenta demais, mas estava linda, com água parada feito piscina e
botos nadando no fundo.
Depois do por do sol os amigos do papai foram para o hotel e
nós fomos para Alter. Mamãe queria um café. Sentamos de novo no restaurante do
Arco-Íris da Amazônia, rimos ao ver que vendia açaí com tapioca, farinha d’água
ou granola (para paraenses, o que se vende em São Paulo não é açaí, e granola
com açaí é pecado. Mas se o lugar é ponto turístico...). Acessamos a internet livre do programa Navega Pará
(disponível também em outros pontos da cidade). Fomos atendidos por uma mocinha
muito simpática e um tantinho atrapalhada, com um sotaque diferente:
- Desculpa gente, eu não sei. É meu segundo final de semana
trabalhando aqui!
Pedimos caipirinhas. Começou
uma música boa. Começamos a dançar. Mais
caipirinhas. Conversamos mais com a Jenny, a garçonete. E descobrimos que ela é
paulista. Que já foi pra Nova York. Que está em Alter escrevendo um livro, algo
como “Duas semanas de Amor”. Pedimos mais caipirinhas, e uma dose de tequila
pra dividir. E eu já não queria mais voltar para Unicamp. Eu iria ficar em
Alter do Chão vendo a água ir e vir, conhecendo gente nova de todos os cantos,
trabalhando e escrevendo um livro, que nem a Jenny.
Ainda vou comprar o livro dela.
A música acabou e a gente não queria voltar pro hotel. Fomos
parar em um forró pé de serra, onde dançamos descalços no chão de areia.
Voltamos do café em Alter do Chão às três da manhã.
O dia seguinte foi o dia do casamento. Acordamos tarde,
passeamos um pouco no centro da cidade (típico centrão com lojas e casas
antigas), fomos ao centro cultural – uma casa antiga com a academia de letras
de Santarém; os ossos de uma baleia mink que se perdeu por aquelas bandas e acabou morrendo – a baleia que mais entrou
em água interioranas, pelo que se tem notícia; cerâmica tapajônica; quadros e
algumas antiguidades. Me chamaram atenção as cores do lugar; amarelo, vermelho
e verde, num colorido muito vivo e diferente do que a gente geralmente encontra
nesses lugares. Achei bonito. Conversamos com seu Laurimar, lenda viva e
responsável por pintar muitos dos quadros das autoridades, hoje cego. E com
Apolinário, o novo pintor de retratos com opiniões sobre tudo, dizendo que a
violência é característica do ser humano, e teorizando muito adequadamente
sobre o aumento da violência em cidades grandes amazônicas causada pelos fluxos
migratórios interioranos.
Fomos almoçar no restaurante Casa de Saulo, que considero
parada obrigatória na cidade. Era de fato a casa do tal do Saulo, que de tanto
abri-la para festas resolveu fazer um restaurante. O lugar é escondido (mais
estrada de terra, dessa vez areia mesmo entre as árvores), e lindo. Uma casa no
alto de uma colina, com uma piscininha e uma parte com mesas cobertas com teto
de palha. Embaixo, praia. Ao redor, floresta. Mais uma vez, lindo. E a comida
estava ótima, dos sucos naturais ao pirarucu recheado de banana.
Voltamos para casa no final da tarde, para cochilar e nos
arrumar para a festa – maquiagem, vestido e paletó. O noivo se arrumou no
hotel, nervoso até a raiz dos cabelos. Quando saímos para o casamento, outro
casamento começava no hotel. E foi a primeira noite na qual chegamos e não
interrompemos festa nenhuma. Eram 5:30h da manhã.
O casamento foi lindo. E nós (família, amigos) dançamos e
pulamos cinco horas sem parar. Saímos do salão depois dos noivos, correndo
suados em roupas de festa debaixo de chuva. E eu percebi que é isso que eu
quero pra minha vida – ser a pessoas chata que fecha festas e chega em casa
encharcada. Se eu fizer isso uma vez por mês, meu ano valeu a pena.
No dia seguinte ainda teve almoço em um sítio. Eu estava
morta. Os noivos estavam exaustos e felizes – ela manteve o conselho, com cabelo
lindo, lipoescultura e unhas de silicone.
Eu e minha irmã terminamos a noite comendo yakissoba caribenha entregue
por um restaurante mexicano (uma delícia, por sinal, com banana caramelada – a
primeira eu comi achando que era calabresa! – e abacate. Não achava que
funcionaria até comer) e assistindo big brother e a entrega do globo de ouro na
TV. E expulsando um grilo que ainda entrou no nosso quarto.
Hoje de manhã o aeroporto pequeno era um charme. Toda a
cidade era um charme. Todos os voos do dia cabiam com folga em uma tela da
Infraero, e achei aconchegante. Soube que estão ampliando o aeroporto e achei
ótimo também.
Embarcamos debaixo de chuva – pelo jeito uma tradição, a
chuva das 5h. Andando com pequenininhos guarda-chuvas da TAM até o avião.
Santarém, eu recomendo e vou voltar.
Um comentário:
Lindo Marina, eu amo Santarém!
Meu pai nasceu lá e eu fui varias vezes. Já levei a Esther, ela amou Alter mas era pequena, nem deve lembrar.
Adorei, vou guardar as dicas para a proxima!
bjs
Suzy
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