Quando eu era criança, achava que aos dezoito anos eu seria muito adulta. Madura, independente; morando sozinha no meu apartamento com o meu cachorro.
Aí eu fui crescendo, o prazo foi se encurtando e eu me dei conta que não era bem por aí. Aos dezessete eu era só mais uma vestibulanda enfiada nos livros; então toda minha esperança de crescimento consistia em ser aprovada na droga daquela prova (engraçado pensar agora como na época do vestibular parece que ele é o fim do mundo). Passei, continuei morando com meus pais; mas ao menos algumas esperanças eu ainda tinha do meu décimo oitavo aniversário. Título de eleitor eu tirei aos dezesseis, mas aos dezoito pude tirar a carteira de motorista. O machismo brasleiro me livrou da encheção de saco do alistamento militar. Mas minha esperança mais antiga, cultivada desde os dez anos de idade, era estética.
Cheguei quase batendo na mesa do oftalmologista:
- Quero operar meus olhos e parar de usar óculos.
Ele riu:
- Você está com quantos anos, mesmo?
- Acabei de fazer dezoito.
- Ninguém opera antes dos vinte e um.
"Como assim???", eu pensei, indignada; "como assim ninguém opera antes dos vinte e um???" Eu, tão adulta aos meus dezoito anos, do alto do meu metro e setenta e cinco ainda nem tinha terminado de crescer.
Mais três anos se passaram, e eu tive duas surpresas: a primeira foi o dia em que nasceu uma espinha na minha cara. Não foi bem surpresa; é verdade, eu sabia que o efeito da isotreitinoína que destruiu meus lábios aos dezessete não ia durar para sempre. Verdade seja dita, depois dela eu nunca tive mais do que três espinhas simultâneas no rosto, e só em tpms esporádicas. Mas ainda assim... É como diz a Roomie: devia ter uma lei que proibisse a gente de ter espinha depois dos dezoito anos. Eu assino embaixo. Eu sou adulta, poxa! Espinha não é coisa de adolescente?
A segunda surpresa foi minha visita dos vinte e um ao oftalmologista:
- Marina, eu não recomendo você operar. Seu astigmatismo é muito alto.
- Não vou poder operar nunca??? - Perguntei, fazendo biquinho.
- Bom... não com as técnicas que existem hoje.
Saí do oftalmo me sentindo muito enganada.
Daqui a um mês eu vou fazer vinte e quatro anos, e meu oftalmologista ainda não mudou de ideia (eu é que tive que mudar de ideia, para viver melhor com essa parte de mim que são meus óculos). Não tenho lá muita esperança, mas pelo menos achei que as surpresas tinham acabado.
Já moro sozinha desde os vinte; ainda vivo de mesada e acho que assim permanecerei por algum tempo; e minha kitnet é tão pequena que mal cabemos eu e a Roomie, que dirá um cachorro. Mas sou feliz com as escolhas que fiz.
Aí no início do ano eu fui à dentista, e ela me pediu uma radiografia de siso. "Radiografia de siso?". Dos meus dentes do juízo, só um deu as caras até hoje; e de vez em quando eu sinto eles doerem, mas achei que é porque eles estavam crescendo...
Not.
Poisé. Eu, que nem aparelho usei, vou ter que arrancar os quatro sisos. E só com vinte e três eu descubro isso.
Mas isso a gente não faz aos dezoito??? Eu achei que já tinha passado dessa fase!!!
Desisto. Tiraram de mim a ilusão de crescer e criar juízo.
Aí eu fui crescendo, o prazo foi se encurtando e eu me dei conta que não era bem por aí. Aos dezessete eu era só mais uma vestibulanda enfiada nos livros; então toda minha esperança de crescimento consistia em ser aprovada na droga daquela prova (engraçado pensar agora como na época do vestibular parece que ele é o fim do mundo). Passei, continuei morando com meus pais; mas ao menos algumas esperanças eu ainda tinha do meu décimo oitavo aniversário. Título de eleitor eu tirei aos dezesseis, mas aos dezoito pude tirar a carteira de motorista. O machismo brasleiro me livrou da encheção de saco do alistamento militar. Mas minha esperança mais antiga, cultivada desde os dez anos de idade, era estética.
Cheguei quase batendo na mesa do oftalmologista:
- Quero operar meus olhos e parar de usar óculos.
Ele riu:
- Você está com quantos anos, mesmo?
- Acabei de fazer dezoito.
- Ninguém opera antes dos vinte e um.
"Como assim???", eu pensei, indignada; "como assim ninguém opera antes dos vinte e um???" Eu, tão adulta aos meus dezoito anos, do alto do meu metro e setenta e cinco ainda nem tinha terminado de crescer.
Mais três anos se passaram, e eu tive duas surpresas: a primeira foi o dia em que nasceu uma espinha na minha cara. Não foi bem surpresa; é verdade, eu sabia que o efeito da isotreitinoína que destruiu meus lábios aos dezessete não ia durar para sempre. Verdade seja dita, depois dela eu nunca tive mais do que três espinhas simultâneas no rosto, e só em tpms esporádicas. Mas ainda assim... É como diz a Roomie: devia ter uma lei que proibisse a gente de ter espinha depois dos dezoito anos. Eu assino embaixo. Eu sou adulta, poxa! Espinha não é coisa de adolescente?
A segunda surpresa foi minha visita dos vinte e um ao oftalmologista:
- Marina, eu não recomendo você operar. Seu astigmatismo é muito alto.
- Não vou poder operar nunca??? - Perguntei, fazendo biquinho.
- Bom... não com as técnicas que existem hoje.
Saí do oftalmo me sentindo muito enganada.
Daqui a um mês eu vou fazer vinte e quatro anos, e meu oftalmologista ainda não mudou de ideia (eu é que tive que mudar de ideia, para viver melhor com essa parte de mim que são meus óculos). Não tenho lá muita esperança, mas pelo menos achei que as surpresas tinham acabado.
Já moro sozinha desde os vinte; ainda vivo de mesada e acho que assim permanecerei por algum tempo; e minha kitnet é tão pequena que mal cabemos eu e a Roomie, que dirá um cachorro. Mas sou feliz com as escolhas que fiz.
Aí no início do ano eu fui à dentista, e ela me pediu uma radiografia de siso. "Radiografia de siso?". Dos meus dentes do juízo, só um deu as caras até hoje; e de vez em quando eu sinto eles doerem, mas achei que é porque eles estavam crescendo...
Not.
Poisé. Eu, que nem aparelho usei, vou ter que arrancar os quatro sisos. E só com vinte e três eu descubro isso.
Mas isso a gente não faz aos dezoito??? Eu achei que já tinha passado dessa fase!!!
Desisto. Tiraram de mim a ilusão de crescer e criar juízo.
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