sábado, 16 de outubro de 2010

Círio (post 2)

- E aí, Morango? Que tal o Natal de vocês lá?


A resposta que eu deveria ter dado:

Tinha esquecido o quanto era bonita a chegada a Belém, quase sempre voo à noite. Dessa vez, fui de dia, e a impressão que se tem é que o avião vai pousar na água - chegamos passando a baía. Depois tem um tequinho de mato, e por fim chegamos à pista.
Nossa, quanta gente! E o aeroporto estava fantasiado, com direito a imagem da santa no hall de desembarque (e gente batendo foto), música típica, balões e dançarinos de carimbó. 
Neste ano, brinquei de turista. Sexta fui ver o auto do círio na cidade velha (uma manifestação artística de rua); sábado foi dia de arraial do pavulagem - outra manifestação cultural, dessa vez um percuruso à pé e música popular, que eu adoro! - e à noite um finzinho da transladação, que é uma procissão também, só que fazendo o percurso oposto ao círio. Sim, a santa vai e volta. E mais na verdade, círio é maratona. Nossa, é realmente estranho estar explicando isso, já que pra mim é tão... enraízado, natural. É quase como explicar o Natal para alguém que não conhece o catolicismo. Porque ia ter que falar da Judeia, e de Nazaré, e de Maria que concebeu virgem, e da manjedoura, e dos reis magos, e da data em si, e mencionar a vida de Jesus, e justificar porque se dão presentes hoje em dia, e o consumismo associado, e por que dos pinheiros, guirlandas, Papai Noel, renas... Parando para pensar, eu nem sei os porquês de tudo isso. Você sabe? Bom, essa constatação me fez me sentir menos mal de me dar conta que não sei tampouco de todos os porques do Círio de Nazaré. Sei só a história básica. Assim: um pescador, Plácido, um dia encontrou uma imagem de santa no lago, e a levou para sua casa. Porém, de noite a imagem sumiu, e ele a encontrou novamente perto do rio. A história de levar para casa, sumir e reencontrar se repetiu algumas vezes, até ele entender que ali era um lugar para ser construída uma igreja. E então começou a peregrinação, há uns 300 anos. As manifestações culturais obviamente são bem mais recentes, mas já fazem parte da festa. E a cidade para de verdade. Para ser muito sincera, o que me atrai de verdade é isso, o sentimento familiar, a tradição envolvida. Gosto de tradições, de cultura popular; e estar morando longe apenas faz eu me dar conta do quanto minhas raízes estão em Belém. Não sou uma pessoa religiosa, e considero esse culto à virgindade do catolicismo algo absolutamente contraproducente, para não dizer machista mesmo. É uma droga lidar com sexualidade - especialmente a feminina - como algo sujo.
Mas o círio é muito mais que uma festa católica, e há um sentimento tão bom envolvido que é maior do que religião. E eu adoro sentir isso, me sentir parte disso.
No domingo não acompanhei a procissão em si, mas teve o almoço típico, que para mim foram dois - uma da família por parte de mãe, outro pela família por parte de pai. Perdi uns 10 anos de expectativa de vida pelo tanto que comi. E é sempre tão bom rever todo mundo. Todo mundo mesmo; os que ainda moram lá e os outros que se espalharam pelo país. Paraenses fogem do Pará muito mais do que paulistas fogem de São Paulo; cabeça interiona inocente e curiosa de mundo, como se o mundo estivesse no sudeste e não no nosso canto do país. Sim, eu acho que vocês de São Paulo acham que o Brasil é isso aqui, que o Brasil são vocês. E a gente, lá do Norte, vem pra cá endossar esse pensamento. Complicada esse dilema raízes x vontade de mundo; amor à terra x oportunidades; ir ou não ir, voltar ou não voltar. Mas no círio todo mundo volta, e minha nova teoria é que a cidade lota não por turistas, mas pela volta de quem não mora mais nela.
É sempre bom voltar.


A resposta que eu dei:

-Foi legal.

Detesto esses meus dias nada eloquente.

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