quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O diploma que eu não recebi

Estavam todos lindos naquelas roupinhas pretas, enchapeuzados. Becados, literalmente; uma vez na vida isso acontece. Lindos de gravata, lindas de salto. Lindos esperando aquele canudo, o prêmio dos quatro anos que vivi pela metade. Eu na platéia, com aquela lagriminha brincando de equilibrista no canto do olho.
Eu estava meio orgulhosa. Não porque houvesse motivo, mas aquela era a minha turma. E se eu não conheci todos como deveria, posso dizer que conheci o suficiente para admirar dedicação e - por que não? - gostar.  Aos meus amigos é sempre difícil acreditar, mas sou terrivelmente tímida. Mas do meu cantinho sou bem assim, cheia de gostares gratuitos.
E havia também aqueles que invariavelmente me são mais. Pessoas que vivi, amigos que me viveram mais.  Os que me fizeram me achar super importante disputando de quem eu seria convidada na festa. Gente que posso dizer que amo. E por esses, oh! Eu poderia deixar minha cara inchar.
Ao mesmo tempo, a inevitável reconstatação do óbvio; de que ainda serão mais pelo menos quatro anos até ser eu a usar uma beca. Eu sabia, quando decidi deixar meu curso bem no meio, que este seria um fato difícil de encarar. Saber sentimentos com antecedência, entretanto, em pouco ajuda no momento de vivê-los; compreender evita culpa desnecessária, mas dor de qualquer modo é dor. Minha postergação da entrada no mercado de trabalho, da tão almejada independência financeira; da vida adulta de verdade. Estou a pouco mais de um mês de completar vinte e dois anos, não é como se eu ainda fosse uma menininha. Daqui a dez anos ainda seremos jovens e nada disso deverá fazer muita diferença, mas hoje é bem chato ver meus amigos de escola se formando e lembrar que alguns dos meus novos amigos estavam na oitava série no ano em que terminei o colégio.
Arrependimento? Não, de modo algum. No meu primeiro vestibular, eu não tinha a maturidade necessária para uma decisão tão séria. Largar o curso foi dificílimo, mas ainda acho que mais válido do que me formar em algo que não me agrada. E morar em outra cidade, estudando em uma das melhores universidades do país, está sendo um aprendizado e uma oportunidade única. Toda escolha implica em perdas; e acredito que na minha contabilizo mais ganhos. Profissionalmente, sim; emocionalmente, também.
Assim deixei a lágrima escorrer e achei a noite linda; e abracei todos e  parabenizei e bati fotos e dancei e pulei a mesa e bebi uma cerveja. Dei parabéns a meus amigos pela nova etapa na vida deles, e com passos seguros continuo a minha.
.
,
Ps: Na cerimônia, houve um causo tragicômico, que não posso me abster de contar. Assim: em toda solenidade de formatura, toca-se o hino do Brasil. Só que um dos meus amigos da minha antiga turma é africano, e nada mais justo que tocar o hino dele também. Então, antes do nosso, o orador anunciou:
- Primeiramente, tocaremos o hino de São Tomé e Príncipe.
Na saída, um dos fotógrafos comentou:
- Puxa, que bonita a atitude de vocês, homenagear os mortos do terremoto tocando o hino de Porto Príncipe...
Ninguém se prontificou a corrigir.

Nenhum comentário: