A palavra trash foi criada para descrever noites como aquela.
Para começar a história, vale dizer que tudo aconteceu no escuro. Um fusível da república tinha dado problema, daí a festa toda foi assim, a luz de velas. Uma ou outra tomada estava funcionando, e elas tinham importantes funções: a primeira mantinha aceso um abajur que iluminava um pouco mais que as velas. A segunda mantinha ligado o notebook, responsável pelo som. A terceira era a da geladeira, templo do guaraná e do suquinho, que eram úteis para misturar com a vodka, a cachaça e o rum. E claro, lá estavam também as loiríssimas cervejas.
Acho que éramos uns 30. Primeiro conversando e comendo aperitivos. Todo mundo estava bem. Daí cantamos parabéns e uns dez foram embora; aumentamos o som, e o número de pessoas dançando costuma mesmo ser inversamente proporcional à qualidade da música e diretamente proporcional ao número de copos que já se virou. Arriba, abajo, avante, adentro!
Parecia que ia durar a noite inteira, todo mundo rindo alto e dançando até o chão. Michael Jackson, carimbó, forró, brega, música indiana, funk. Divertidíssimo. Na batida geladíssima, levinha e adocicada, ia meia garrafa de vodka e a gente nem se apercebia. Ninguém mais era adolescente, mas era mesmo o tipo de bebida que a gente se engana; aquelas que dizem que é para embebedar menina. Mas como ninguém mais era menina... Em cima da mesa, o guaraná também adocicava o rum, a gosto; e o gosto era cada vez mais alcoólico e a segunda garrafa de rum já estava na metade e o guaraná persistia. Na cozinha era rodada atrás de rodada de tequila, e as cervejas estavam para acabar.
Foi quando apareceu a polícia. Eram umas 23:30h ainda, mas era terça-feira. O som foi abaixado e um dos rapazes da república teve que assinar um papel se comprometendo a respeitar o silêncio. Assustou um pouco, mais não muito; porque a essa altura ninguém mais estava sóbrio o suficiente para não rir em vez de se assustar. A maioria do pessoal então sentou; mas eu ainda estava rodopiando nos braços de um amigo tentando terminar de metabolizar o álcool que tinha bebido antes quando me disseram que ela estava passando mal.
Ela é minha amiga há tempos e tinhamos ido juntas à festa. Corri para o quarto onde ela estava dormindo; outra amiga - a heroína da noite - fazendo companhia. E todo aquele vômito no colchão do aniversariante, e ela ainda desacordada. Assustei.
- A gente tem que dar um banho nela. - Disse a heroína, e ninguém ia contestar o óbvio. Nosso amigo alto, forte e prestativo a pegou no colo (nessas horas que você percebe a importância de ter um amigo alto, forte e prestativo. Se bem que o alto só conta pelo charme...) e a levou até o banheiro, aí ficamos com ela só nós duas e uma das meninas da república.
Eu já tinha visto menina bêbada dormindo na grama de desconhecido, mas nunca tinha ajudado pra valer alguém mal assim. Nunca tinha visto alguém próximo mal assim. E ela definitivamente não era alguém que eu esperava ver mal assim; ela faz o tipo boa menina, mesmo dizendo que um dia ia pegar um porre homérico, daqueles que você acorda na sarjeta com um cachorro lambendo a sua cara, só para dar trabalho para todas as pessoas de quem ela já cuidou. E parece que ela tinha escolhido o dia, muito embora entre as pessoas que ajudaram houvesse apenas um amigo de quem ela já cuidou. Ela estava jogada no chão, mole, numa posição visivelmente desconfortável; nenhum movimento além de eventuais tentativas de vomitar de novo. Assustei, assustei mesmo.
- Todo mundo passa por isso um dia. - Ao contrário de mim, a heroína estava bem calma - O importante é a gente cuidar dela com dignidade. Ninguém precisa ver ela assim. A pior coisa quando você acorda é descobrir que muita gente te viu assim. É muito importante também que só meninas deem banho; é muito ruim saber que um cara te limpou e viu sem roupa.
Se a heroína não estivesse lá, eu realmente não sei o que iriamos fazer.
Foi um banho bem difícil. Minha amiga é mais pesada do que parece, e não acordou com a água, nem com a gente chamando. E estava escorregadia, e vomitava. No chão, na gente; e o pior de tudo, nela mesma, depois de já ter sido limpa. Foi uma hora infinita naquele banheiro abafado, com duas velas; até a colocarmos em uma roupa do aniversariante e chamarmos o amigo alto, forte e prestativo para levá-la de volta à cama, que ganhara um novo colchão enquanto o anterior, já limpo, secava no telhado.
Nesse meio tempo, a família da minha amiga alcoolizada ligava para o celular dela. Ninguém atendeu por não saber o que dizer, então eu retornei a ligação com minha melhor voz de boa menina:
- Oi! Ah, está tudo bem sim, ela só está cochilando um pouco... E sim, vamos voltar juntas.
A heroína e eu estávamos cansadas e imundas. As garotas da república nos ofereceram roupas, mas no meu corpo alto e rechonchudo com quadris extra largos obviamente caberia apenas uma roupa - grande - de um dos rapazes, e depois de um banho eu estava enfiada num uniforme de jogador de futebol. Estendi minha roupa suja na janela, para que pela manhã ela estivesse pelo menos seca, e voltei para o quintal, bem mais vazio, para tentar conversar um pouco. Não deu, eu estava exausta. Foi minha hora de pedir cama. O aniversariante já tinha mostrado um colchão que mais parecia um edredon e era pouco maior que uma toalha, e me ofereceu uma rede; mas eu tenho um colchão exatamente igual àquele e com sono durmo em qualquer lugar. Deitei ao lado da cama onde estava minha amiga e apaguei, não sem antes colocar o celular para despertar dali a uma hora, para ver se ela continuava bem.
Acordei pouco antes do celular despertar, quase pisoteada. Minha amiga estava vomitando de novo, e quem ainda restava na festa estava naquele quarto. A heroína a acudia, e alguém deu a ideia de levá-la para o hospital.
- Ela só está dormindo - A heroína continuava calma. - É normal, gente. A gente só precisa cuidar dela.
Entre os remanescentes, havia um aluno do quarto ano de enfermagem, a quem demos licença. A essa altura eu já estava sentada com a costa apoiada na parede, pensando no que fazer, ainda muito sonolenta e ainda com gosto de bebida. Não lembro se consegui dizer que não era hora para hospital, que o pior já tinha passado. O quase enfermeiro aferiu pulso e sentiu respiração, e disse que de fato no hospital só iriam dar glicose e preocupar os pais. Tomou o lugar da heroína e ficou cuidando da minha amiga o resto da madrugada. Ela estava vomitando bem menos, dava para administrar com um lixeiro e uma toalha.
- Dorme, Marina. - A heroína, de novo - De manhã você vai ter que dirigir.
E eu acabei me rendendo mesmo, colchão reposicionado para evitar novos pisoteamentos. O quase enfermeiro riu de mim na manhã seguinte, dizendo que eu parecia um frango de padaria rolando naquele espaço tão pequeno do colchão; e que era muito engraçado eu me sentar de vez em quando, perguntar se ela estava bem e então deitar de novo. Dada hora, uma das garotas da república entrou no quarto e pegou minhas roupas da janela. Achei que ela iria apenas estendê-las lá fora; só depois fiquei sabendo que ela tinha mania de organização e que as lavou, juntamente com as da heroína e as da minha amiga, no meio da madrugada.
Acordei um pouco antes das cinco horas, ouvindo minha amiga falando. Sonolenta, tonta e lenta, mas falando. Tremendo alívio. O celular dela tocou e dessa vez ela atendeu; voz mais inocente e limpa. Incrível.
- Oi mãe. Tá, tá tudo bem sim. Daqui a pouco a gente deve ir, só estou esperando a Marina acordar...
Por um instante, bateu o "depois de tudo, sou eu quem fica de bêbada!". Mas era por uma boa causa.
É claro que minha amiga não lembrava de nada, mas estava de bom humor. O amigo alto, forte e prestativo nos fez um café. Conversamos um monte, já dava para rir um pouco da bagunça. Minha amiga tomou um banho sozinha, eu vesti as minhas roupas. O dia estava clareando. Eu tinha que estar em casa antes das 7h. Demos um abraço forte em quem ainda estava acordado; deixamos um beijo para a heroína, que finalmente dormia; e levamos em casa o quase enfermeiro que foi de quase desconhecido a companheiro de farra. Enquanto eu dirigia, combinávamos os detalhes da história; e quem vomitara fora o cara chato da turma, porque afinal caras chatos são pra isso mesmo; e voltamos para casa amassadas, vomitadas e cansadas, mas boas meninas com cheiro de café.
Para começar a história, vale dizer que tudo aconteceu no escuro. Um fusível da república tinha dado problema, daí a festa toda foi assim, a luz de velas. Uma ou outra tomada estava funcionando, e elas tinham importantes funções: a primeira mantinha aceso um abajur que iluminava um pouco mais que as velas. A segunda mantinha ligado o notebook, responsável pelo som. A terceira era a da geladeira, templo do guaraná e do suquinho, que eram úteis para misturar com a vodka, a cachaça e o rum. E claro, lá estavam também as loiríssimas cervejas.
Acho que éramos uns 30. Primeiro conversando e comendo aperitivos. Todo mundo estava bem. Daí cantamos parabéns e uns dez foram embora; aumentamos o som, e o número de pessoas dançando costuma mesmo ser inversamente proporcional à qualidade da música e diretamente proporcional ao número de copos que já se virou. Arriba, abajo, avante, adentro!
Parecia que ia durar a noite inteira, todo mundo rindo alto e dançando até o chão. Michael Jackson, carimbó, forró, brega, música indiana, funk. Divertidíssimo. Na batida geladíssima, levinha e adocicada, ia meia garrafa de vodka e a gente nem se apercebia. Ninguém mais era adolescente, mas era mesmo o tipo de bebida que a gente se engana; aquelas que dizem que é para embebedar menina. Mas como ninguém mais era menina... Em cima da mesa, o guaraná também adocicava o rum, a gosto; e o gosto era cada vez mais alcoólico e a segunda garrafa de rum já estava na metade e o guaraná persistia. Na cozinha era rodada atrás de rodada de tequila, e as cervejas estavam para acabar.
Foi quando apareceu a polícia. Eram umas 23:30h ainda, mas era terça-feira. O som foi abaixado e um dos rapazes da república teve que assinar um papel se comprometendo a respeitar o silêncio. Assustou um pouco, mais não muito; porque a essa altura ninguém mais estava sóbrio o suficiente para não rir em vez de se assustar. A maioria do pessoal então sentou; mas eu ainda estava rodopiando nos braços de um amigo tentando terminar de metabolizar o álcool que tinha bebido antes quando me disseram que ela estava passando mal.
Ela é minha amiga há tempos e tinhamos ido juntas à festa. Corri para o quarto onde ela estava dormindo; outra amiga - a heroína da noite - fazendo companhia. E todo aquele vômito no colchão do aniversariante, e ela ainda desacordada. Assustei.
- A gente tem que dar um banho nela. - Disse a heroína, e ninguém ia contestar o óbvio. Nosso amigo alto, forte e prestativo a pegou no colo (nessas horas que você percebe a importância de ter um amigo alto, forte e prestativo. Se bem que o alto só conta pelo charme...) e a levou até o banheiro, aí ficamos com ela só nós duas e uma das meninas da república.
Eu já tinha visto menina bêbada dormindo na grama de desconhecido, mas nunca tinha ajudado pra valer alguém mal assim. Nunca tinha visto alguém próximo mal assim. E ela definitivamente não era alguém que eu esperava ver mal assim; ela faz o tipo boa menina, mesmo dizendo que um dia ia pegar um porre homérico, daqueles que você acorda na sarjeta com um cachorro lambendo a sua cara, só para dar trabalho para todas as pessoas de quem ela já cuidou. E parece que ela tinha escolhido o dia, muito embora entre as pessoas que ajudaram houvesse apenas um amigo de quem ela já cuidou. Ela estava jogada no chão, mole, numa posição visivelmente desconfortável; nenhum movimento além de eventuais tentativas de vomitar de novo. Assustei, assustei mesmo.
- Todo mundo passa por isso um dia. - Ao contrário de mim, a heroína estava bem calma - O importante é a gente cuidar dela com dignidade. Ninguém precisa ver ela assim. A pior coisa quando você acorda é descobrir que muita gente te viu assim. É muito importante também que só meninas deem banho; é muito ruim saber que um cara te limpou e viu sem roupa.
Se a heroína não estivesse lá, eu realmente não sei o que iriamos fazer.
Foi um banho bem difícil. Minha amiga é mais pesada do que parece, e não acordou com a água, nem com a gente chamando. E estava escorregadia, e vomitava. No chão, na gente; e o pior de tudo, nela mesma, depois de já ter sido limpa. Foi uma hora infinita naquele banheiro abafado, com duas velas; até a colocarmos em uma roupa do aniversariante e chamarmos o amigo alto, forte e prestativo para levá-la de volta à cama, que ganhara um novo colchão enquanto o anterior, já limpo, secava no telhado.
Nesse meio tempo, a família da minha amiga alcoolizada ligava para o celular dela. Ninguém atendeu por não saber o que dizer, então eu retornei a ligação com minha melhor voz de boa menina:
- Oi! Ah, está tudo bem sim, ela só está cochilando um pouco... E sim, vamos voltar juntas.
A heroína e eu estávamos cansadas e imundas. As garotas da república nos ofereceram roupas, mas no meu corpo alto e rechonchudo com quadris extra largos obviamente caberia apenas uma roupa - grande - de um dos rapazes, e depois de um banho eu estava enfiada num uniforme de jogador de futebol. Estendi minha roupa suja na janela, para que pela manhã ela estivesse pelo menos seca, e voltei para o quintal, bem mais vazio, para tentar conversar um pouco. Não deu, eu estava exausta. Foi minha hora de pedir cama. O aniversariante já tinha mostrado um colchão que mais parecia um edredon e era pouco maior que uma toalha, e me ofereceu uma rede; mas eu tenho um colchão exatamente igual àquele e com sono durmo em qualquer lugar. Deitei ao lado da cama onde estava minha amiga e apaguei, não sem antes colocar o celular para despertar dali a uma hora, para ver se ela continuava bem.
Acordei pouco antes do celular despertar, quase pisoteada. Minha amiga estava vomitando de novo, e quem ainda restava na festa estava naquele quarto. A heroína a acudia, e alguém deu a ideia de levá-la para o hospital.
- Ela só está dormindo - A heroína continuava calma. - É normal, gente. A gente só precisa cuidar dela.
Entre os remanescentes, havia um aluno do quarto ano de enfermagem, a quem demos licença. A essa altura eu já estava sentada com a costa apoiada na parede, pensando no que fazer, ainda muito sonolenta e ainda com gosto de bebida. Não lembro se consegui dizer que não era hora para hospital, que o pior já tinha passado. O quase enfermeiro aferiu pulso e sentiu respiração, e disse que de fato no hospital só iriam dar glicose e preocupar os pais. Tomou o lugar da heroína e ficou cuidando da minha amiga o resto da madrugada. Ela estava vomitando bem menos, dava para administrar com um lixeiro e uma toalha.
- Dorme, Marina. - A heroína, de novo - De manhã você vai ter que dirigir.
E eu acabei me rendendo mesmo, colchão reposicionado para evitar novos pisoteamentos. O quase enfermeiro riu de mim na manhã seguinte, dizendo que eu parecia um frango de padaria rolando naquele espaço tão pequeno do colchão; e que era muito engraçado eu me sentar de vez em quando, perguntar se ela estava bem e então deitar de novo. Dada hora, uma das garotas da república entrou no quarto e pegou minhas roupas da janela. Achei que ela iria apenas estendê-las lá fora; só depois fiquei sabendo que ela tinha mania de organização e que as lavou, juntamente com as da heroína e as da minha amiga, no meio da madrugada.
Acordei um pouco antes das cinco horas, ouvindo minha amiga falando. Sonolenta, tonta e lenta, mas falando. Tremendo alívio. O celular dela tocou e dessa vez ela atendeu; voz mais inocente e limpa. Incrível.
- Oi mãe. Tá, tá tudo bem sim. Daqui a pouco a gente deve ir, só estou esperando a Marina acordar...
Por um instante, bateu o "depois de tudo, sou eu quem fica de bêbada!". Mas era por uma boa causa.
É claro que minha amiga não lembrava de nada, mas estava de bom humor. O amigo alto, forte e prestativo nos fez um café. Conversamos um monte, já dava para rir um pouco da bagunça. Minha amiga tomou um banho sozinha, eu vesti as minhas roupas. O dia estava clareando. Eu tinha que estar em casa antes das 7h. Demos um abraço forte em quem ainda estava acordado; deixamos um beijo para a heroína, que finalmente dormia; e levamos em casa o quase enfermeiro que foi de quase desconhecido a companheiro de farra. Enquanto eu dirigia, combinávamos os detalhes da história; e quem vomitara fora o cara chato da turma, porque afinal caras chatos são pra isso mesmo; e voltamos para casa amassadas, vomitadas e cansadas, mas boas meninas com cheiro de café.
Um comentário:
Olha esse é um dos melhores..hahaha.. Nem tava mas parecia que tava....hahahaha...Muito bom, só fiquei com pena da Heronia..hahaha
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