A mim parecia o dia mais frio do ano; aqueles tons de cinza tomando o lugar das cores. Eu não era a única a dar pulinhos na tentativa de me aquecer, embora ainda houvesse um maldito rapaz de camiseta apenas. Por outro lado, havia até luvas, muitas; e mesmo meu amigo paulistano que geralmente é o maldito rapaz de camiseta apenas estava dentro do agasalho, comentando a queda brusca de temperatura.
Na sexta eu tinha prova de cálculo, e meu plano original era sair da aula e ir me afundar nos livros em algum lugar quentinho. Foi quando vi o trailer do hemocentro recolhendo doações de sangue em frente ao instituto de física; e como já não doo há algum tempo, resolvi dar uma passada lá.
A primeira pergunta que me fizeram foi:
- Você já é doadora?
- Eu costumava doar lá em Belém.
- Ah, mas é a primeira vez na Unicamp.
E algumas perguntas simples se seguiram; e eu recebi uma senha; e foi o procedimento padrão - espera, dedo furado e temperatura tomada, espera, entrevista. Entretanto, a parte do espera deve ser ressaltada, porque sem exagero durou uma hora inteira, naquele frio.
Aí a entrevista. As perguntas clássicas sobre utilização de drogas, doenças e número de parceiros sexuais; e então uma inesperada:
- Você fez recentemente alguma viagem à região norte?
Eu já fiquei meio desconcertada.
- Ãh... Sim.
A entrevistadora levantou os olhos do papel e me olhou, desanimada:
- Quanto tempo tem?
- Ah, eu fui lá na Páscoa. Eu sou de Belém.
Desânimo da entrevistadora aumentando.
- Ah, você é de Belém... Tá morando aqui há quanto tempo?
- Desde março.
- Ah... - Nisso ela fez um "x" enorme no formulário inteiro, abaixou a caneta e me olhou - Bom, Marina, aí a coisa muda. Pessoas da região norte só podem doar sangue depois de três anos morando aqui. Não é o seu caso, então você não vai poder doar.
Eu devo ter feito uma cara muito ruim, porque a cara de pena da entrevistadora piorou.
- Puxa, bem que podia ter algum aviso, né? Eu tô esperando há uma hora...
- É, a gente tem alguns avisos na placa, mas não dá para colocar todos. Iam perguntar, e são coisas muito específicas da área da saúde, ia ter que ter alguém para explicar... Sinto muito.
- Puxa, mas a primeira coisa que eu disse quando cheguei foi que eu era de Belém, custava ter me avisado?
- É uma pena, mas você não vai poder doar, sinto muito.
E, muito educadamente, mandou-me chamar o próximo (só depois eu ponderei que a mocinha qe fez as primeiras perguntas não devia sacar nada de geografia, ou simplesmente não associou os fatos).
O próximo era da minha sala e havia mais um conhecido com ele, e eu não pude conter:
- Não vou poder doar porque sou de Belém. E me deixaram esperando todo esse tempo pra me dizer. Trofeu joinha pra vocês.
Andando no sentido contrário, me senti completamente estúpida, porque a garganta começou a arder e os olhos, a marear. Me enfiei na primeira cabine de banheiro que encontrei, para me recompor e lidar com aquela sensação de não pertencer, de estar tão longe de casa, no lugar errado. Estava frio demais e eu me senti absurdamente sozinha, a cara inchando num banheiro sujo da universidade. Péssimo. Respira, Marina, respira. Isso faz parte das suas escolhas. Certo, pode chorar só um pouquinho mais. Pronto? Vamos lá lavar essa cara e estudar. Na frente do bandejão, porque seu celular descarregou e você marcou com seu amigo de encontrar ele lá para vocês almoçarem juntos.
Na sexta eu tinha prova de cálculo, e meu plano original era sair da aula e ir me afundar nos livros em algum lugar quentinho. Foi quando vi o trailer do hemocentro recolhendo doações de sangue em frente ao instituto de física; e como já não doo há algum tempo, resolvi dar uma passada lá.
A primeira pergunta que me fizeram foi:
- Você já é doadora?
- Eu costumava doar lá em Belém.
- Ah, mas é a primeira vez na Unicamp.
E algumas perguntas simples se seguiram; e eu recebi uma senha; e foi o procedimento padrão - espera, dedo furado e temperatura tomada, espera, entrevista. Entretanto, a parte do espera deve ser ressaltada, porque sem exagero durou uma hora inteira, naquele frio.
Aí a entrevista. As perguntas clássicas sobre utilização de drogas, doenças e número de parceiros sexuais; e então uma inesperada:
- Você fez recentemente alguma viagem à região norte?
Eu já fiquei meio desconcertada.
- Ãh... Sim.
A entrevistadora levantou os olhos do papel e me olhou, desanimada:
- Quanto tempo tem?
- Ah, eu fui lá na Páscoa. Eu sou de Belém.
Desânimo da entrevistadora aumentando.
- Ah, você é de Belém... Tá morando aqui há quanto tempo?
- Desde março.
- Ah... - Nisso ela fez um "x" enorme no formulário inteiro, abaixou a caneta e me olhou - Bom, Marina, aí a coisa muda. Pessoas da região norte só podem doar sangue depois de três anos morando aqui. Não é o seu caso, então você não vai poder doar.
Eu devo ter feito uma cara muito ruim, porque a cara de pena da entrevistadora piorou.
- Puxa, bem que podia ter algum aviso, né? Eu tô esperando há uma hora...
- É, a gente tem alguns avisos na placa, mas não dá para colocar todos. Iam perguntar, e são coisas muito específicas da área da saúde, ia ter que ter alguém para explicar... Sinto muito.
- Puxa, mas a primeira coisa que eu disse quando cheguei foi que eu era de Belém, custava ter me avisado?
- É uma pena, mas você não vai poder doar, sinto muito.
E, muito educadamente, mandou-me chamar o próximo (só depois eu ponderei que a mocinha qe fez as primeiras perguntas não devia sacar nada de geografia, ou simplesmente não associou os fatos).
O próximo era da minha sala e havia mais um conhecido com ele, e eu não pude conter:
- Não vou poder doar porque sou de Belém. E me deixaram esperando todo esse tempo pra me dizer. Trofeu joinha pra vocês.
Andando no sentido contrário, me senti completamente estúpida, porque a garganta começou a arder e os olhos, a marear. Me enfiei na primeira cabine de banheiro que encontrei, para me recompor e lidar com aquela sensação de não pertencer, de estar tão longe de casa, no lugar errado. Estava frio demais e eu me senti absurdamente sozinha, a cara inchando num banheiro sujo da universidade. Péssimo. Respira, Marina, respira. Isso faz parte das suas escolhas. Certo, pode chorar só um pouquinho mais. Pronto? Vamos lá lavar essa cara e estudar. Na frente do bandejão, porque seu celular descarregou e você marcou com seu amigo de encontrar ele lá para vocês almoçarem juntos.
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