Hoje moro em Santo Antonio de Lisboa, perto do centrinho de colonização açoriana, com casinhas velhas e coloridas, há exatos três quarteirões da orla. Lá tem o por do sol mais bonito, e a primeira rua calçada por ocasião da visita de Dom Pedro - não lembro qual. Tem também uma igrejinha linda e disputada por casamentos; mas sempre que alguém casa, chove. Parece uma cidade pequena encrustada na capital de Santa Catarina. Florianópolis é uma capital toda feita de pequenas retalhos de cidades, como um bordado entre montanhas e mar.
Há algum tempo venho descobrindo e construindo mitologias.
Existe por exemplo o Rei Lobo, um cão de rua que por outros é conhecido como Coronel. É preto como uma noite preta, mas com alguns pelos acinzentando pela sabedoria da velhice canina. Soube logo que o vi que aquelas orelhas em pé e corpo peludo eram de sangue azul, e não título militar - não importa o que digam. Ele é indiscutivelmente a realeza local, tirando cochilos onde melhor convém e caminhando vagarosamente por entre os carros e turistas. Na praia tem uma enorme placa onde lê-se "proibido animais", mas Rei Lobo não sabe ler. É também um cão com apreço pelas artes, por isso é comum vê-lo em uma galeria que é também café e casa de espetáculo.
Outra noite o vi saindo do cemitério que fica do lado da igreja, tal qual uma assombração. A noite sussurrou-me no ouvido o título completo: Rei Lobo, o cão espectral.
Conversando com o David em casa tive então o vislumbre da história completa: Rei Lobo está aqui desde os tempos de colônia. Rei Lobo já foi gente. Rei Lobo era açoriano e teria que voltar para Portugal para seu amor. Não. Rei Lobo não queria voltar para Portugal e sua prometida. Rei Lobo preferia viver nesta ilha de Santa Catarina como cão do que voltar a Portugal. Havia uma bruxa; em Florianópolis sempre houve bruxas. Sim, isso. Rei Lobo era gente, açoriano, e veio ao Brasil mas deixou para trás sua prometida. Aqui, apaixonou-se pela terra e por uma bruxa. Foi forçado a voltar a Portugal, mas não queria. Pouco depois do barco partir, houve um naufrágio. Ele nadou o máximo que pode de volta à costa. Chegou ao litoral com um fiapo de alma viva. A bruxa tomou-o nos braços; estás mais morto que vivo; não posso mais salvá-lo como homem, meu amor. Oh minha querida, sem ti não há vida; prefiro viver aqui como cão do que como rei em qualquer outro lugar. E assim ela execuou a transformação. Do homem fez-se rei-cão.
Noutra noite, em outro passeio, perguntei ao David como deveria agir se um dia chegasse em casa e descobrisse que havia se passado 50 anos enquanto eu estava engarafada na SC-401.
(Ele questionou-me se haviam se passado 50 anos para os outros carros também; eu disse que não sabia porque só eu entrei no bairro. Os outros carros seguiram para os Ingleses ou Canasvieiras; talvez cheguem lá ao término de um século)
David disse que ele teria virado uma árvore, e que eu poderia pegar um galho para fazer uma flauta. Eu não sei tocar flauta, mas aprenderia. Eu disse que o regaria e o cercaria de boas ervas; e o colocaria no lugar do Clóvis, a nossa palmeira-ráfia que fica ao lado da cama. Daí pensei que se eu virasse árvore, ia querer ser levada para a floresta. E de repente doeu-me a solidão da mata.
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