quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Memórias do golpe

Se um dia eu tiver netas(os), quero que estas(es) saibam que estive do lado certo da História. Se não as(os) tiver, contarei para as(os) sobrinhas(os), ou filhas(os) das(os) amigas(os). De fato, já há gente demais no mundo; não há necessidade de genes com astigmatismo pesado e problemas de colesterol alto serem passados adiante. (O que não quer dizer que eu não tenha o sonho clichê do barrigão, mas isso é discussão para outro post. Como de costume, perdi-me em digressões).

Para as gerações futuras, crias minhas ou não, contarei que houve luta. E eu, como tantas outras e tantos outros, estava lá, gritando palavras de ordem pela constituição nascida no mesmo ano que eu. O tempo histórico é lento; eu mesma ainda sou jovem - ainda não fiz 30 anos!; a democracia brasileira já renasceu com presidente deposto e no meu período de vida vejo o segundo deixar o cargo assim. A primeira mulher presidenta, deposta. Uma mídia tão misógina que recusou-se a usar a nomenclatura desejada pela presidentA. Uma ex-guerrilheira que se aliou com tudo o que havia de pior da política em nome de uma governabilidade que nunca de fato existiu.

Contarei que passei horas assistindo TV senado, estupefata; enquanto cortes eram feitos na educação pública e eu, que sonhava em ser professora universitária de universidade federal ou estadual (sonho que quando eu contar a história espero que esteja realizado), não conseguia bolsa para realizar meu doutorado. 

Serei honesta: contarei que o governo da presidenta manteve congeladas bolsas de pós-graduação e que a inflação, embora distante do pesadelo que meus pais viveram, fazia minhas compras de mercado primeiramente cada vez mais caras, já que eu era (sou) uma moça em condições de privilégio; até alcançarem o patamar de deixarem minhas compras mais modestas. Contarei que a presidenta não se manifestou pela legalização do aborto e que autorizou Belo Monte. A presidenta cometeu muitos erros.

Serei honesta: contarei que o governo da presidenta, continuidade do Lula, promoveu, através da tão falha tentativa de conciliação de classes, melhoras na vida de quem precisava mais. Enquanto isso, os bancos nunca lucraram tanto. Contarei que a outra opção era abertamente privatista. Contarei que o PT era um grande saco de gatos, abrigando desde militantes idealistas até políticos eleitos com ética bastante questionável e desejo de poder. Contarei que muito do próprio PT abandonou a presidenta no fim.

Contarei que a presidenta era uma mulher valente e que, apesar de todas as discordâncias políticas, eu a admirava. Contarei que o governo dela estava reduzindo direitos, ao contrário do prometido; mas que, com sua saída, a velocidade da perda atingiu níveis inimagináveis. Perdeu-se o pudor. O SUS foi considerado caro; aumento da jornada de trabalho foi proposto; as universidade federais viram seu orçamento ser reduzido em 45%. Enquanto isso, saiam editoriais em jornais de grande circulação dizendo que educação pública era injusta e reformar a CLT era necessário.

Serei honesta, e contarei que nessa história o mais relevante juridicamente é que honesta a presidenta também era. Não cometeu nenhum delito que justificasse o impeachment. Foi vítima de uma campanha midiática que, sendo ela mulher como era, pintou-a de louca. Foi formalmente acusada de pedaladas fiscais após uma chantagem de um homem que tinha uma fortuna na Suíça; e fez a própria defesa no senado com uma coragem diametralmente oposta ao presidente golpista que a substituiu - um homem temeroso e temerário, que temia vaias, casou-se com mais de sessenta anos com uma menina recém-saída da adolescência e não tinha mulheres como ministras.

Impeachment sem crime é golpe; e o próprio senado assumiu seu golpe num prêmio de consolação de não cassar os direitos políticos da ex-presidenta.

Contarei que participei de alguns atos Fora Temer antes do impeachment; e que em ato eu nunca sei ao certo o que fazer. 2013 revelou que o poder estava nas ruas, mas ainda não sabemos como lidar. Contarei o choque ao ouvir os deputados votando por Deus e suas famílias. Num estado dito democrático e laico, Deus foi usado centenas de vezes como argumento para uma ruptura democrática. Divindade suprime a necessidade de voto ou de crime.

Contarei que na semana da votação final do impeachment eu assisti TV senado loucamente, chocada de que as outras pessoas conseguissem fazer outras coisas. No dia da votação final, cheguei atrasada na aula das 14h, porque fiquei assistindo a sessão. Na lousa, um exercício de livro sobre exergia, enquanto no país um golpe acabava de ser consumado. Eu tava embasbacada e mal conseguia copiar. Corpo presente apenas. Quem se preocupa com exergia uma hora dessas?

Uma amiga me mandou uma mensagem falando que haveria ato em São Paulo. Decidimos ir. Aproveitei o intervalo para fugir da aula, pensando que o professor deveria me achar mesmo uma louca - eu, doutoranda da Unicamp e cria da casa desde a graduação, já o havia piquetado na greve estudantil e agora fugia de uma aula dele para protestar contra o golpe. Esse professor é uma pessoa ótima, mas a termodinâmica não vai mudar assim tão rápido quanto a universidade ou o país.

Fomos em 4 para a Avenida Paulista. Era cedo e havíamos sido informados que a concentração seria na Praça do Ciclista, que não sabíamos onde era. Para dar um toque de ironia, minha amiga resolveu perguntar para os PMs parados na esquina.

-Vocês não vão para o ato, vão? - Eles perguntaram, depois de apontarem a direção.

- Não, imagina! Vamos andar de bicicleta.

Nós, manifestantes. Os PMs mal-pagos. Um conflito iminente entre vítimas enquanto o Temer tá na China.

O ato estava se concentrando na frente do MASP, na verdade. Ao fundo, via-se o pixuleco sendo enchido na FIESP, na comemoração pelo impeachment. Era cedo e havia poucos dos nossos ainda; resolvemos ir ver como os outros estavam. Tirei minha blusa vermelha e fechei meu casaco onde se lê "engenharia", na minha fantasia de golpista. Os quarteirões que nos separavam estavam atulhados de PMs, e lamentei não ter levado minha câmera - os registros do celular não ficaram muito bons, mas o cenário era mais ou menos esse:








O ato comemoração estava bastante esvaziado, apenas com um carro som que transformou uma música do Chico Buarque em Fora Dilma (ironia never ends) e no máximo uns cinquenta gatos pingados. Um cara tirava selfies e eu pensei que deveria ir embora rápido, como medo de ser fotografada ali.

Quando voltamos para o nosso ato, ele estava saindo do MASP já. Meu choque foi ver a quantidade de PMs no caminho. Nunca tinha visto tantos na vida, e eles não paravam de chegar, com carros e motos e tropas a pé. Não tive medo, ainda; a invulnerabilidade de quem só tomou uma bomba uma vez de leve e nunca tomou uma dura.



O ato Foram Temer estava gigantesco. Não sei estimar quantidade, mas achei lindo e me senti um pouco mais esperançosa. Andamos até o final da paulista, dobramos; com os gritos de ordem tradicionais:

- Temer, seu otário! O seu governo continua temporário!

- Machistas, fascistas, não passarão!

- A verdade é dura! A rede globo apoiou a ditadura! (E ainda apoia)

- Bate panela, pode bater! Na ditadura a Dilma lutou por você!

- Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da polícia militar!

- Fora Temer! Fora Temer!

Em um prédio, alguém bateu panelas. Após a curva, sacos de lixo começaram a ser incendiados para bloquear ruas. Avançamos, avançamos. Então a PM chegou em nossa frente. E começaram as bombas.

É assustador ver uma bomba caindo do céu.

Corremos.

Eu, meus amigos e uma pequena multidão nos aglomeramos numa entrada de estabelecimento comercial fechado, entre estouros de bomba e aquele cheiro insuportável. Tentei respirar com calma, comecei a sufocar; e num movimento instintivo puxei mais ar para os pulmões. Pior ideia. Meu rosto todo queimava, meus olhos incharam e lagrimavam, comecei a salivar loucamente e achei que fosse vomitar. Sai correndo em direção a rua, numa atitude não muito esperta de quem achou que fosse desmaiar em meio a multidão. Lá pelo menos havia mais ar, e a PM estava longe o suficiente. Algumas pessoas começaram a pular muros, tentando fugir do sufocamento; meus amigos começaram a correr em direção a paulista e fui junto. Um porteiro de um estabelecimento arriscou seu emprego abrindo a porta para ajudar nossa fuga; e eu pensei que aquele cara sim era um herói e que se houvesse uma revolução eu seria a primeira a morrer, quase desmaiando com gás lacrimogênio em protesto cheio de estudante onde não tem tiro.

Fico pensando como a gente naturalizou ter uma polícia contra a gente. 

Após essa dispersão, o ato foi acontecendo em vários lugares. Gritamos mais e mais sacos de lixo foram incendiados em ruas. Ouvimos mais bombas de longe, e pelo celular ficamos sabendo dos focos de maior tensão. Em todo lugar havia tropa de choque, e agências bancárias foram quebradas. Não chegamos até a Folha, mas soubemos que lá houve balas de borracha. Em outro lugar, alguém foi atropelado. Em todo lugar havia secundaristas, e elas e eles me enchem de esperança no meio do caos, enfrentando a PM enquanto eu fugia.

No fim, voltamos para Campinas com pernas doloridas e a sensação de que um ato é tão pouco diante do terror político que se instaura. Mas o presidente golpista tem medo de vaias e está na China, e nós estamos do lado certo da História.

Acordei com ligação da minha mãe e treta em grupo de whatsapp, com cara fazendo textão dizendo estar fazendo uma não-discussão não-pessoal alegando que protestar contra impeachment era a mesma coisa que ser bolsomito; e xingando outro amigo por um motivo que eu não entendi até agora. "Isentão". Respondi que era uma discussão e que era pessoal e político, porque pessoal é político; que ele não precisava concordar comigo, mas que me orgulhava das bombas na cara e de lutar pelo que acredito e que achava sintomático sermos uma geração que acha a mesma coisa criticar torturadores e vítimas de tortura. O cara disse que a discussão estava encerrada porque nem tinha lido o que eu tinha dito e que achava que ninguém leria o que ele escrevera. Respondi que se fosse para não sermos lidos, que escrevêssemos em nossos diários. E então saí do grupo. Eu tinha prometido para mim mesma que não sairia de grupos de amigos por política; porque em política se faz adversários e não inimigos. Mas eu estava ali para conversar, e se ele acha que pode falar qualquer coisa e encerrar a discussão achando que não seria lido e não lendo a resposta, não está havendo diálogo, e gastar a minha sanidade mental nisso perde o sentido.

Hoje tem ato em Campinas, domingo tem ato em São Paulo. 

Vamos incendiar o país.


Um comentário:

david disse...

lindissimo texto, me senti transportado diretamente para a manifestação (não fui em sp, mas em campinas e me lembro muito bem de 2013...)