(Texto escrito para o III Concurso literário da biblioteca das engenharias da Unicamp. Gênero: Crônica. Tema: " A fronteira entre a ciência e a ficção!"
Fiquei em terceiro lugar.)
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A máquina do tempo
Neila girou cuidadosamente a chave de fenda. Estava com câimbras. A máquina do tempo era delicada e bela. Não poderia ter pressa em consertá-la. Não poderia forçar suas minúsculas engrenagens. Tudo tinha que ser meticuloso e preciso, na imprecisão que era o mundo.
Ironicamente, tinha para si todo o tempo do mundo. Nada mais importava, só consertar a máquina do tempo.
Neila girou cuidadosamente a chave de fenda. Estava com câimbras. A máquina do tempo era delicada e bela. Não poderia ter pressa em consertá-la. Não poderia forçar suas minúsculas engrenagens. Tudo tinha que ser meticuloso e preciso, na imprecisão que era o mundo.
Ironicamente, tinha para si todo o tempo do mundo. Nada mais importava, só consertar a máquina do tempo.
Uma gota do seu suor caiu no visor da máquina, e Neila pegou um lenço para enxugar rapidamente. Conscientemente, sabia que uma gota de suor não causaria danos, mas tinha medo. A máquina estava parada, e a sensação que Neila tinha era que o próprio mundo parara também. Resolveu ela própria parar. Não sabia há quantas horas estava trabalhando no conserto, não tinha como saber. Olhou pela janela e viu que lá fora começava timidamente a clarear. Há quanto tempo não respirava o ar lá de fora? Sentia-se segura entre as paredes encardidas da oficina; o ar lá de fora lembrava a fumaça nos seus pulmões e o sangue escorrendo pelo peito perfurado de Star.
Pensar em Star doía mais do que a costela quebrada e as queimaduras.
Estava quente demais na oficina, por isso o suor escorria. Então, num ato de bravura, Neila decidiu que era a hora de encarar o céu.
Neila devia seu nome ao céu: filha de um casal de astrofísicos, nascida no meio da corrida espacial. Se fosse um menino, seria Neil, como o Armstrong. Veio menina, virou Neila – educação superior não inibe neologismos brasileiros cafonas, ouviu um amigo da mãe cochichar. À época nem sabia o que era neologismo, e foi pesquisar. Descobriu assim muito jovem que cientistas podiam julgar que invenções que não faziam mal a ninguém eram ruins, e que adultos podiam fazer comentários tão maldosos quanto os meninos que quebraram seu protótipo de foguete construído de palitos de picolé, sob alegação de que ela era menina e que por isso deveria era brincar de casinha.
– Um pequeno passo para um homem, um salto gigante para humanidade. – Disse Neil Armstrong, ao pisar na lua. Era como Neila se sentia agora, ao pisar na rua. As teorias da conspiração diziam que o homem nunca chegou na lua e que aquela bandeira não tinha como bruxulear. “Bruxulear” servia para fogo e não para bandeira, Neila sabia; mas gostava da palavra porque lembrava bruxa. Quando criança, Neila viu imagens daquelas mulheres de vestido preto voando na frente da lua. Antes do homem chegar na lua, a mulher voava na frente da lua! Neila queria ser uma bruxa e a primeira mulher a chegar na lua, montada em uma vassoura. Uma professora de escola lhe explicou que ela não podia querer ser uma bruxa, porque as bruxas eram más, e lhe mostrou um livro onde uma bruxa feia fazia uma princesa loira de salto alto machucar o dedo em uma agulha e dormir até um príncipe vir salvá-la. Neila não era loira e não gostava de saltos altos. Preferia um grande salto para a humanidade. Neila não queria dormir até um príncipe lhe acordar.
Neila olhou para os braços queimados do acidente, a pele feia e aberta. Certamente deixaria uma feia cicatriz. Bruxulear era para fogo. Eis que virara mesmo bruxa, como aquelas medievais. O acidente fora sua fogueira. Respirou fundo, e doía respirar. Era impressão ou ainda tinha a fumaça em si? Não tinha bandeira para fincar, mas sentia que ela própria era uma bandeira – eu existo, eu estou viva, essa ainda é a minha rua. Fincava o pé descalço no asfalto, e sentia o ar no peito bruxulear. A rua que lhe trouxera e lhe roubara Star.
Star tinha cabelos pretos feito o universo e olhos cinzentos como o asfalto.
Era estranho pensar que houve um tempo em que não entendia o que sentia por Star.
Neila e Star sempre foram esquisitas. Neila, com aquele nome, e tão miúda, e aquele papo sobre as estrelas erradas – enquanto as outras meninas tinham na parede pôsteres do Cristopher Reeve de Super-homem e liam histórias de amor, Neila tinha fotos tiradas com uma câmera e um telescópio e lia as revistas de seus pais. Sempre fora uma aluna brilhante, mas nunca tivera uma amiga. Até a chegada de Star.
Star mudou-se para a casa na frente da de Neila, para sua escola e para sua vida, em poucos meses, nessa ordem.
Star também devia seu nome ao céu. Não o físico, mas o divino. Nome bíblico: Ester. Ia ao culto todos os domingos e rezava antes das refeições. O pai era pastor e a mãe dona de casa, e esta sempre lhe ensinou que um dia ela também viria servir a um marido e a um lar. Os dois irmãos mais velhos a vigiavam feito soldados, mas Ester nunca tirara um único dedo da linha. Já estava com quinze anos, já tinha corpo de moça, mas vestia sempre as roupas castas que a mãe mandava, não trocava olhares indevidos com moços e não questionava, porque não via por que questionar.
Até que Neila e Star colidiram feito galáxias.
Era um projeto de escola. Feira de ciências. Nenhuma das duas tinha grupo, foram colocadas juntas.
- Nem esquenta, posso fazer sozinha. – Disse Neila – Tenho uma ótima ideia, e é o que geralmente acontece.
- De jeito nenhum! – Respondeu Ester.
- Por que? Acha que é pecado?
- Não. Quer dizer, eu também acharia errado. Mas acontece que eu também tenho uma ideia excelente.
Neila levantou uma sobrancelha.
- Sobre o que você quer falar?
- Você já ouviu falar do Stephen Hawking?
Neila levantou as duas sobrancelhas.
Naquele instante, tornaram-se amigas. Naquela manhã, decidiram que o trabalho seria uma apresentação sobre o universo. Nos dois meses que se seguiram até a feira, releram “Uma breve história do tempo” juntas, exploraram a biblioteca dos pais de Neila, passaram noites olhando o telescópio que a menina tinha e batendo fotos, e conversaram sobre tudo.
- Você acha que em algum momento conseguiremos viajar no tempo? - Perguntou Neila a Star em uma dessas noites.
- Acho que sim. Basta conseguirmos entrar em um buraco de minhoca. Ou viajar próximo da velocidade da luz. Também conta como viajar no tempo, não?
- Acho que sim. Imagina só, sairmos daqui agora e voltarmos no futuro, daqui a séculos!
- Espero que as pessoas lá sejam melhores.
- Melhores como?
- Que se amem mais.
Star olhou para o relógio de pulso que usava. Estava com a família há gerações. Viajara no tempo.
- Deveríamos colocar esse relógio na nossa apresentação. – Disse. - Representa a máquina do tempo que a gente vai construir um dia. E... Neila, também quero te dar um apelido.
- Eu já me chamo Neila. Não preciso de apelido.
- É injusto. Star é fofo, você precisa de um também.
- Quando você descobrir um planeta, batiza ele com o meu nome. – Ela disse.
- Batizo. E esse será nosso mundo.
- Nesse sistema solar, a estrela central se chamará Star.
Star sorriu, e o sorriso dela era mais bonito que a lua. O coração de Neila batia rápido, tão rápido que ela mal conseguia respirar. O corpo todo estava quente... levantou o rosto e olhou Star nos olhos – aqueles olhos cinzentos infinitos! Os lábios de Star tremiam. Neila não conseguia mais pensar. Ficou na ponta dos pés e encostou seus lábios nos lábios de Star.
Todo o sentimento do universo estava condensado em um ponto dentro de Neila.
O beijo foi o Big Bang.
O sentimento explodiu e começou a se expandir. E ela teve certeza que aquele amor viajaria por toda a eternidade e alcançaria todas as fronteiras do universo.
O dia seguinte era a feira de ciências. Neila e Star deram as mãos por baixo da mesa, enquanto os visitantes olhavam sem muito interesse todas as fotos que elas tinham batido do céu e o relógio de Star lá no meio. Não importava. Estavam juntas. Prontas para viajar no tempo, no espaço, na vida.
Foi o irmão mais velho de Star quem viu as mãos juntas primeiro. E Neila não viu de onde a mão dele veio. Só sentiu seu braço sendo puxado violentamente, e um tapa que fez seus óculos voarem.
- Larga minha irmã, sua sapatão!
Seus ouvidos zuniam. Foi tudo rápido demais. O outro irmão de Star puxando-a pelos cabelos. O irmão mais velho a atirando para longe. As fotos sendo rasgadas. Algumas pessoas intervindo.
Chegou em casa com o rosto machucado pelos tapas e inchado de chorar. Estava trancada no quarto quando ouviu uma buzina na janela. Star estava numa moto, com o rosto muito machucado. Tremia.
- Vamos fugir pro nosso planeta! – Disse.
E Neila sem pensar pulou a janela e subiu na garupa.
Não tinham andado um quarteirão quando o carro dos pais de Star começou a segui-las. Era o irmão mais velho que dirigia. Star acelerou. Cruzou um sinal vermelho. E encontrou um caminhão.
No segundo antes de desmaiar, Neila viu que o vidro do caminhão quebrara e perfurara o peito de Star.
Foi sua mãe quem lhe entregou o relógio, quando acordou no hospital. Estava quebrado, é claro. Tão logo pôde voltar para casa, Neila começou a se dedicar a consertar a máquina do tempo.
Naquela primeira noite em que conseguiu encarar o céu depois do acidente, antes do sol nascer Neila viu uma estrela cadente.
Pensar em Star doía mais do que a costela quebrada e as queimaduras.
Estava quente demais na oficina, por isso o suor escorria. Então, num ato de bravura, Neila decidiu que era a hora de encarar o céu.
Neila devia seu nome ao céu: filha de um casal de astrofísicos, nascida no meio da corrida espacial. Se fosse um menino, seria Neil, como o Armstrong. Veio menina, virou Neila – educação superior não inibe neologismos brasileiros cafonas, ouviu um amigo da mãe cochichar. À época nem sabia o que era neologismo, e foi pesquisar. Descobriu assim muito jovem que cientistas podiam julgar que invenções que não faziam mal a ninguém eram ruins, e que adultos podiam fazer comentários tão maldosos quanto os meninos que quebraram seu protótipo de foguete construído de palitos de picolé, sob alegação de que ela era menina e que por isso deveria era brincar de casinha.
– Um pequeno passo para um homem, um salto gigante para humanidade. – Disse Neil Armstrong, ao pisar na lua. Era como Neila se sentia agora, ao pisar na rua. As teorias da conspiração diziam que o homem nunca chegou na lua e que aquela bandeira não tinha como bruxulear. “Bruxulear” servia para fogo e não para bandeira, Neila sabia; mas gostava da palavra porque lembrava bruxa. Quando criança, Neila viu imagens daquelas mulheres de vestido preto voando na frente da lua. Antes do homem chegar na lua, a mulher voava na frente da lua! Neila queria ser uma bruxa e a primeira mulher a chegar na lua, montada em uma vassoura. Uma professora de escola lhe explicou que ela não podia querer ser uma bruxa, porque as bruxas eram más, e lhe mostrou um livro onde uma bruxa feia fazia uma princesa loira de salto alto machucar o dedo em uma agulha e dormir até um príncipe vir salvá-la. Neila não era loira e não gostava de saltos altos. Preferia um grande salto para a humanidade. Neila não queria dormir até um príncipe lhe acordar.
Neila olhou para os braços queimados do acidente, a pele feia e aberta. Certamente deixaria uma feia cicatriz. Bruxulear era para fogo. Eis que virara mesmo bruxa, como aquelas medievais. O acidente fora sua fogueira. Respirou fundo, e doía respirar. Era impressão ou ainda tinha a fumaça em si? Não tinha bandeira para fincar, mas sentia que ela própria era uma bandeira – eu existo, eu estou viva, essa ainda é a minha rua. Fincava o pé descalço no asfalto, e sentia o ar no peito bruxulear. A rua que lhe trouxera e lhe roubara Star.
Star tinha cabelos pretos feito o universo e olhos cinzentos como o asfalto.
Era estranho pensar que houve um tempo em que não entendia o que sentia por Star.
Neila e Star sempre foram esquisitas. Neila, com aquele nome, e tão miúda, e aquele papo sobre as estrelas erradas – enquanto as outras meninas tinham na parede pôsteres do Cristopher Reeve de Super-homem e liam histórias de amor, Neila tinha fotos tiradas com uma câmera e um telescópio e lia as revistas de seus pais. Sempre fora uma aluna brilhante, mas nunca tivera uma amiga. Até a chegada de Star.
Star mudou-se para a casa na frente da de Neila, para sua escola e para sua vida, em poucos meses, nessa ordem.
Star também devia seu nome ao céu. Não o físico, mas o divino. Nome bíblico: Ester. Ia ao culto todos os domingos e rezava antes das refeições. O pai era pastor e a mãe dona de casa, e esta sempre lhe ensinou que um dia ela também viria servir a um marido e a um lar. Os dois irmãos mais velhos a vigiavam feito soldados, mas Ester nunca tirara um único dedo da linha. Já estava com quinze anos, já tinha corpo de moça, mas vestia sempre as roupas castas que a mãe mandava, não trocava olhares indevidos com moços e não questionava, porque não via por que questionar.
Até que Neila e Star colidiram feito galáxias.
Era um projeto de escola. Feira de ciências. Nenhuma das duas tinha grupo, foram colocadas juntas.
- Nem esquenta, posso fazer sozinha. – Disse Neila – Tenho uma ótima ideia, e é o que geralmente acontece.
- De jeito nenhum! – Respondeu Ester.
- Por que? Acha que é pecado?
- Não. Quer dizer, eu também acharia errado. Mas acontece que eu também tenho uma ideia excelente.
Neila levantou uma sobrancelha.
- Sobre o que você quer falar?
- Você já ouviu falar do Stephen Hawking?
Neila levantou as duas sobrancelhas.
Naquele instante, tornaram-se amigas. Naquela manhã, decidiram que o trabalho seria uma apresentação sobre o universo. Nos dois meses que se seguiram até a feira, releram “Uma breve história do tempo” juntas, exploraram a biblioteca dos pais de Neila, passaram noites olhando o telescópio que a menina tinha e batendo fotos, e conversaram sobre tudo.
- Você acha que em algum momento conseguiremos viajar no tempo? - Perguntou Neila a Star em uma dessas noites.
- Acho que sim. Basta conseguirmos entrar em um buraco de minhoca. Ou viajar próximo da velocidade da luz. Também conta como viajar no tempo, não?
- Acho que sim. Imagina só, sairmos daqui agora e voltarmos no futuro, daqui a séculos!
- Espero que as pessoas lá sejam melhores.
- Melhores como?
- Que se amem mais.
Star olhou para o relógio de pulso que usava. Estava com a família há gerações. Viajara no tempo.
- Deveríamos colocar esse relógio na nossa apresentação. – Disse. - Representa a máquina do tempo que a gente vai construir um dia. E... Neila, também quero te dar um apelido.
- Eu já me chamo Neila. Não preciso de apelido.
- É injusto. Star é fofo, você precisa de um também.
- Quando você descobrir um planeta, batiza ele com o meu nome. – Ela disse.
- Batizo. E esse será nosso mundo.
- Nesse sistema solar, a estrela central se chamará Star.
Star sorriu, e o sorriso dela era mais bonito que a lua. O coração de Neila batia rápido, tão rápido que ela mal conseguia respirar. O corpo todo estava quente... levantou o rosto e olhou Star nos olhos – aqueles olhos cinzentos infinitos! Os lábios de Star tremiam. Neila não conseguia mais pensar. Ficou na ponta dos pés e encostou seus lábios nos lábios de Star.
Todo o sentimento do universo estava condensado em um ponto dentro de Neila.
O beijo foi o Big Bang.
O sentimento explodiu e começou a se expandir. E ela teve certeza que aquele amor viajaria por toda a eternidade e alcançaria todas as fronteiras do universo.
O dia seguinte era a feira de ciências. Neila e Star deram as mãos por baixo da mesa, enquanto os visitantes olhavam sem muito interesse todas as fotos que elas tinham batido do céu e o relógio de Star lá no meio. Não importava. Estavam juntas. Prontas para viajar no tempo, no espaço, na vida.
Foi o irmão mais velho de Star quem viu as mãos juntas primeiro. E Neila não viu de onde a mão dele veio. Só sentiu seu braço sendo puxado violentamente, e um tapa que fez seus óculos voarem.
- Larga minha irmã, sua sapatão!
Seus ouvidos zuniam. Foi tudo rápido demais. O outro irmão de Star puxando-a pelos cabelos. O irmão mais velho a atirando para longe. As fotos sendo rasgadas. Algumas pessoas intervindo.
Chegou em casa com o rosto machucado pelos tapas e inchado de chorar. Estava trancada no quarto quando ouviu uma buzina na janela. Star estava numa moto, com o rosto muito machucado. Tremia.
- Vamos fugir pro nosso planeta! – Disse.
E Neila sem pensar pulou a janela e subiu na garupa.
Não tinham andado um quarteirão quando o carro dos pais de Star começou a segui-las. Era o irmão mais velho que dirigia. Star acelerou. Cruzou um sinal vermelho. E encontrou um caminhão.
No segundo antes de desmaiar, Neila viu que o vidro do caminhão quebrara e perfurara o peito de Star.
Foi sua mãe quem lhe entregou o relógio, quando acordou no hospital. Estava quebrado, é claro. Tão logo pôde voltar para casa, Neila começou a se dedicar a consertar a máquina do tempo.
Naquela primeira noite em que conseguiu encarar o céu depois do acidente, antes do sol nascer Neila viu uma estrela cadente.
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