[Texto escrito para o Concurso Literário da biblioteca de engenharia da Unicamp]
Naquele tempo a rua não tinha asfalto, mas para ser justa não tinha asfalto quase em lugar nenhum. O lugar onde ficava a casa antiga décadas depois se transformaria no lugar mais elegante da cidade, com prédios de apartamentos caríssimos com vista para o córrego que naquele tempo alagava tudo e fazia as casas serem palafitas. Décadas depois o córrego seria domesticado e ganharia margens de cimento, e as pessoas que morariam nos apartamentos caros iriam correr ao redor dele enquanto as pessoas menos ricas ririam daqueles gran-finos metidos a besta que se exercitavam ao redor daquele esgoto fedorento a céu aberto. Naquele tempo o córrego era livre e não fedia, mas chegava na porta de casa e eles tinham que atar as redes no alto para o caso de uma noite chover um pouco mais.
Mas mesmo naquele tempo a casa antiga já era antiga; e a menina adolescente estava conhecendo a casa nova, na esquina da rua, em frente ao lugar onde as pessoas iam pegar água.
Naquele tempo o bairro não tinha água encanada, e na casa na outra esquina da rua o sétimo filho foi o escolhido da vez para encher o balde. E lá foi ele, descalço na terra batida, com sua bermuda velha, sem camisa e cara de moleque. Como todo mundo, foi para a frente da casa da menina adolescente, e ela olhou de cima a baixo o menino e decidiu que era o mais bem apessoado das redondezas. Ele por sua vez olhou a menina e até hoje nega, mas pensou desavergonhadamente que ela poderia ser a sua próxima namorada.
Naquele tempo não havia o Tinder, e as pessoas descobriam os solteiros da região andando por aí e davam “Mach” na paquera.
Naquele tempo eles se apaixonaram, e muitos outros tempos vieram.
Algum tempo depois daquele tempo, a menina e o menino já eram moça e rapaz e ele tinha um diploma e um emprego em outro estado. E nesse tempo telefone era uma coisa tão cara que praticamente não existia, e eles trocavam apenas cartas de amor, que demoravam dias para chegar.
As cartas de amor eram as coisas mais linda do mundo, e às vezes tão sensuais que faziam a moça corar. Mas não existe distância maior do que aquela entre o papel e o amor; e quando o rapaz voltou ao seu estado a moça descobriu que havia outra moça, e chorou muito ouvindo Roberto Carlos no radinho de pilha.
(Naquele tempo não havia youtube, e as pessoas compravam fitas para gravar suas músicas favoritas no rádio).
Quase um ano se passou até o rapaz conseguir o perdão e o coração da moça de volta. Mas foi a vez da moça conseguir o diploma e o emprego longe, mais longe ainda do que ele fora na sua vez. E o rapaz, que já vinha querendo voltar a estudar em outros ares, decidiu e tentar e logo conseguiu ir também.
Ela até hoje diz que foi pedida em casamento pelo orelhão, apertando os botões certos para aproveitar o bug e fazer as poucas fichas tornarem o interestadual eterno. Ele até hoje diz que ela entendeu errado. Os dois dizem que não queriam festa. Mas houve vestido branco, gravata borboleta e quantidades inimagináveis de cerveja, doces e salgadinhos; e as fotos em sua maioria sofríveis batidas por uma irmã do noivo em uma câmera de filme, porque fotógrafo era muito caro.
(Vinte e cinco anos depois esta irmã do noivo se aposentou e decidiu que faria um curso de fotografia. Hoje ela tem uma câmera profissional, sabe editar imagens no Photoshop, publica lindezas no Facebook, faz exposições e até já ganhou prêmios. Diz que eles deveriam se casar de novo, para ela fotografar).
Os dois então se mudaram para outro estado, e a mãe da moça mandava telegramas urgentes:
- Mãe, o que aconteceu?
- Nada, só estava com saudades e você não liga.
- Consertaram o orelhão...
Antes de casar a moça morava com uma amiga, e as duas no início improvisavam fogão com uma lata de leite em pó. Com o passar do tempo conseguiram até o luxo de uma televisão, presente de um tio mais abastado da moça (e pensar que quando morava na rua sem asfalto vivia de “televizinha”, vendo TV na janela da vizinhança!). Quando ela casou e foi morar com o rapaz, foi da TV o que a amiga mais sentiu falta.
Depois de alguns anos casados, o rapaz e a moça decidiram virar pai e mãe. Primeira viagem, tudo é lindo e fundamental. Exceto o vídeo do ultrassom:
- Pra que a gente vai comprar isso? Tem que fazer consórcio pra comprar videocassete, a gente nunca vai ter tanto dinheiro na vida!
Seis anos depois, as duas filhas dos dois dormiam assistindo desenhos em fitas no videocassete comprado em loja popular. Quando a mais velha já tinha lá pelos seus dezoito anos, a não-mais-moça viu um dvd de desenho em promoção e quis comprar.
- Pra que isso, mãe?
- Guardar para os meus netos.
- Mãe, quando você tiver netos, ninguém mais vai saber o que é um dvd.
Quando a mais velha tinha uma década de vida, a mãe, que era médica, chegou em casa com seu novo aparelho para ser utilizado em emergências – nada mais de bipe, era um celular!
Três anos depois a menina já tinha o seu também. E ele tinha menos da metade do peso do primeiro da mãe.
No ano seguinte, a família ganhou um novo membro – o computador! E a vida de adolescente nunca mais foi a mesma, com a possibilidade de externar suas emoções confortavelmente escondido por detrás de uma tela.
Hoje as duas filhas moram longe dos pais, e a família tem um grupo de Whatsapp e se vê por Skype.
- Pra mim isso era o absurdo dos absurdos da ficção científica – disse um tio, meio atordoado ao ver e ouvir a menina do outro lado do país pela tela do computador.
As meninas não tem ideia de como é não ter água encanada ou ter que atar sua rede alto para o rio não molhar. A mãe reclama que o pai passa muito tempo no smartphone, mas eles ainda trocam sms de amor.
Naquele tempo a rua não tinha asfalto, mas para ser justa não tinha asfalto quase em lugar nenhum. O lugar onde ficava a casa antiga décadas depois se transformaria no lugar mais elegante da cidade, com prédios de apartamentos caríssimos com vista para o córrego que naquele tempo alagava tudo e fazia as casas serem palafitas. Décadas depois o córrego seria domesticado e ganharia margens de cimento, e as pessoas que morariam nos apartamentos caros iriam correr ao redor dele enquanto as pessoas menos ricas ririam daqueles gran-finos metidos a besta que se exercitavam ao redor daquele esgoto fedorento a céu aberto. Naquele tempo o córrego era livre e não fedia, mas chegava na porta de casa e eles tinham que atar as redes no alto para o caso de uma noite chover um pouco mais.
Mas mesmo naquele tempo a casa antiga já era antiga; e a menina adolescente estava conhecendo a casa nova, na esquina da rua, em frente ao lugar onde as pessoas iam pegar água.
Naquele tempo o bairro não tinha água encanada, e na casa na outra esquina da rua o sétimo filho foi o escolhido da vez para encher o balde. E lá foi ele, descalço na terra batida, com sua bermuda velha, sem camisa e cara de moleque. Como todo mundo, foi para a frente da casa da menina adolescente, e ela olhou de cima a baixo o menino e decidiu que era o mais bem apessoado das redondezas. Ele por sua vez olhou a menina e até hoje nega, mas pensou desavergonhadamente que ela poderia ser a sua próxima namorada.
Naquele tempo não havia o Tinder, e as pessoas descobriam os solteiros da região andando por aí e davam “Mach” na paquera.
Naquele tempo eles se apaixonaram, e muitos outros tempos vieram.
Algum tempo depois daquele tempo, a menina e o menino já eram moça e rapaz e ele tinha um diploma e um emprego em outro estado. E nesse tempo telefone era uma coisa tão cara que praticamente não existia, e eles trocavam apenas cartas de amor, que demoravam dias para chegar.
As cartas de amor eram as coisas mais linda do mundo, e às vezes tão sensuais que faziam a moça corar. Mas não existe distância maior do que aquela entre o papel e o amor; e quando o rapaz voltou ao seu estado a moça descobriu que havia outra moça, e chorou muito ouvindo Roberto Carlos no radinho de pilha.
(Naquele tempo não havia youtube, e as pessoas compravam fitas para gravar suas músicas favoritas no rádio).
Quase um ano se passou até o rapaz conseguir o perdão e o coração da moça de volta. Mas foi a vez da moça conseguir o diploma e o emprego longe, mais longe ainda do que ele fora na sua vez. E o rapaz, que já vinha querendo voltar a estudar em outros ares, decidiu e tentar e logo conseguiu ir também.
Ela até hoje diz que foi pedida em casamento pelo orelhão, apertando os botões certos para aproveitar o bug e fazer as poucas fichas tornarem o interestadual eterno. Ele até hoje diz que ela entendeu errado. Os dois dizem que não queriam festa. Mas houve vestido branco, gravata borboleta e quantidades inimagináveis de cerveja, doces e salgadinhos; e as fotos em sua maioria sofríveis batidas por uma irmã do noivo em uma câmera de filme, porque fotógrafo era muito caro.
(Vinte e cinco anos depois esta irmã do noivo se aposentou e decidiu que faria um curso de fotografia. Hoje ela tem uma câmera profissional, sabe editar imagens no Photoshop, publica lindezas no Facebook, faz exposições e até já ganhou prêmios. Diz que eles deveriam se casar de novo, para ela fotografar).
Os dois então se mudaram para outro estado, e a mãe da moça mandava telegramas urgentes:
- Mãe, o que aconteceu?
- Nada, só estava com saudades e você não liga.
- Consertaram o orelhão...
Antes de casar a moça morava com uma amiga, e as duas no início improvisavam fogão com uma lata de leite em pó. Com o passar do tempo conseguiram até o luxo de uma televisão, presente de um tio mais abastado da moça (e pensar que quando morava na rua sem asfalto vivia de “televizinha”, vendo TV na janela da vizinhança!). Quando ela casou e foi morar com o rapaz, foi da TV o que a amiga mais sentiu falta.
Depois de alguns anos casados, o rapaz e a moça decidiram virar pai e mãe. Primeira viagem, tudo é lindo e fundamental. Exceto o vídeo do ultrassom:
- Pra que a gente vai comprar isso? Tem que fazer consórcio pra comprar videocassete, a gente nunca vai ter tanto dinheiro na vida!
Seis anos depois, as duas filhas dos dois dormiam assistindo desenhos em fitas no videocassete comprado em loja popular. Quando a mais velha já tinha lá pelos seus dezoito anos, a não-mais-moça viu um dvd de desenho em promoção e quis comprar.
- Pra que isso, mãe?
- Guardar para os meus netos.
- Mãe, quando você tiver netos, ninguém mais vai saber o que é um dvd.
Quando a mais velha tinha uma década de vida, a mãe, que era médica, chegou em casa com seu novo aparelho para ser utilizado em emergências – nada mais de bipe, era um celular!
Três anos depois a menina já tinha o seu também. E ele tinha menos da metade do peso do primeiro da mãe.
No ano seguinte, a família ganhou um novo membro – o computador! E a vida de adolescente nunca mais foi a mesma, com a possibilidade de externar suas emoções confortavelmente escondido por detrás de uma tela.
Hoje as duas filhas moram longe dos pais, e a família tem um grupo de Whatsapp e se vê por Skype.
- Pra mim isso era o absurdo dos absurdos da ficção científica – disse um tio, meio atordoado ao ver e ouvir a menina do outro lado do país pela tela do computador.
As meninas não tem ideia de como é não ter água encanada ou ter que atar sua rede alto para o rio não molhar. A mãe reclama que o pai passa muito tempo no smartphone, mas eles ainda trocam sms de amor.
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