segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Ilhabela

Desde que a Nat, minha amigona de muitas histórias desde a quarta série, se mudou para a Sampa (isso há quase 9 meses), a gente tá prometendo que vai  viajar junta algum dia. Neste final de semana esse um dia finalmente chegou - e com certeza será a primeira de muitas vezes. O destino foi decidido depois de muito pedir dicas a paulistas e outros moradores e ex-moradores das redondezas, e foi uma dica muito acertada - bela ilha, mesmo.
Esse é um post que fala também de Ilhabela. Mas é mais de histórias e sensações.

Dia 1: sexta-feira, 22 de novembro

A empresa onde eu estagio trocou o feriado da Consciência Negra para sexta, por isso para mim esse final de semana também foi feriadão. E pelo jeito decidir viajar nesse e não no anterior (do dia 15/11, proclamação da república) foi uma decisão bastante acertada, dados os engarrafamentos que fizeram meu recalque dar pulinhos ao ver na tv (enquanto eu estava sozinha em casa, tentando estudar; ou indo estudar no parque ambiental e avaliando meu rendimento pelos corredores que passavam por mim e me mostravam que é mais rápido correr 1,7km do que entender algumas questões). Ouvi relato de gente gastando 15h para chegar na praia, o que fez um amigo meu perguntar se tinham ido para Paris.
Sai da minha casa em Campinas 6:10h, no absurdamente cedo horário que estou acostumada a ir para o trampo. Busquei os simpatíssimos caronistas que levei até Sampa (gente que foi contando história todo o trajeto, o que sempre é bom quando acontece) e segui. Estava sem GPS (porque eu não tenho um GPS - por pura falta de vergonha na cara, devo admitir), mas consegui achar a entrada para a rodoviária do Tietê sem me perder, o que já foi a primeira vitória da viagem. Caronistas entregues, Nat no carro, gritinhos de empolgação - viagem de verdade!
A primeira e única vez que nos perdemos foi nessa saidinha, porque peguei a Marginal no sentido errado - mas quem se importa de fazer retorno na Bandeirantes, não é mesmo? Logo estávamos no rumo certo, nos atualizando uma da vida da outra como de costume. Pedi para a Nat tentar ligar o GPS do celular, mas ele apontava que estávamos dentro do Rio Tietê. Então achamos que seguir as placas daria certo o suficiente. Deu.
Seguindo conselhos, pegamos um caminho um pouco mais longo, porque a Rodovia Tamoios está em reforma e porque ir pelo camiho de Bertioga, pela Serra "é mais bonito; o caminho é um passeio em si", pelo que tinham dito. E é mesmo. Meu carrinho 1.0 sofria; caminhões me ultrapassavam enquanto eu bobamente contemplava tudo; mas impossível não se maravilhar com o mar surgindo por detrás das montanhas... Lá de onde eu venho não tem montanhas; e apesar de já estar há cinco anos em São Paulo, elas ainda me fascinam. E o mar é meu grande amor.

Foto tirada depois, em Ilhabela

No nosso caminho bobo, paramos para bater foto de cachoeira, rimos de pichação "abaixo a burguesia" em um trecho de descida ("Burguesia deve ser o nome de um restaurante que fica abaixo" - piada infâme) e começamos a pegar a chuvinha que seria nossa companheira de feriado. E depois de 7h de volante (das quais 2h foram de Campinas a São Paulo e 5h foram de direção tranquila), chegamos em São Sebastião. Vitória.

Uma das cachoeiras do caminho

Já viajei dirigindo de carro várias outras vezes, mas essa foi a prieira vez que fiz um caminho desconhecido totalmente sob minha responsabilidade. Tenho um senso de direção sofrível e o péssimo hábito de achar natural ter alguém resolvendo meus problemas - no caso, um namorado ou amigo me indicando onde dobrar. Chegar em Ilhabela sem GPS, só com o apoio moral da Nat (que desconhecia o caminho tanto quanto eu) foi realizador. A viagem toda teve um componente girl power muito forte. Empoderador.
São Sebastião é uma cidadezinha bonitinha, e aproveitamos para almoçar e esticar as pernas. Passeamos pela orla, vimos o centrinho histórico colorido e fofo e entramos em uma loja que merece ser mencionada pelo inusitado: o nome era alguma coisa do tipo "mix esotérico", e como olhávamos a vitrine com cara curiosa (nela havia um manequim vestido de bruxa sexy e alguns artigos místicos bastante estranhos), a vendedora nos chamou para entrar. Numa típica atitude de filme de terror, entramos naquele lugar meio escuro e com cheiro estranho. Enquanto a vendedora perguntava a minha amiga qual a religião dela e falava que se identificava, eu via os nichos absolutamente esquisitos separados por religiões. Na parte cristã, havia lápides de verdade. Com foto e data de morte. E na parte de cima da loja havia caixas com fantasias catalogadas: "enfermeira", "palhaço". Agradecemos e saímos rápido, com medo de ter nossa alma roubada. Que medo.
Depois dessa, voltamos para o carro e seguimos para a fila da balsa. Foi quase 1h de espera, marcada por vendedores ambulantes - destaque para o que, ao ver que a placa era de Campinas, colocou a mão na cintura e falou, com voz afeminada-deboche:
- Bicha, adoro!
E me deu um punhado de amendoins para degustação.
Já na balsa, meu celular fez barulho. Whatsapp. Um amigo de facul me mandando... uma nota baixa minha! Gente, eu tentando fugir do mundo e o mundo vindo atrás de mim. Ele me pediu mil desculpas, tinha me mandado as notas sem ter visto. #Chateei. Mas enfim. Mimimi.
Fora isso, tudo lindo.


Boinha da balsa. Gostei das cores

E enfim chegamos em Ilhabela. E, com auxílio do GPS do celular, que resolveu funcionar, na nossa pousada. Linda, chalézinhos. Com funcionários super simpáticos.
Ofereceram para trocar a cama de casal por duas de solteiro (uma já estava no quarto), não respondemos de pronto. Chegamos no quarto e a cama de casal era bem melhor, e eu sempre durmo com a Nat na cama de casal dela quando vou visitá-la em Sampa. Mantivemos a cama de casal mesmo. Havia uma mancha na cama, mas - prova do nosso espírito jovem-universitário-pobre - a gente não deu a mínima. As risadas vieram quando a gente se deu conta de que a tal da mancha na realidade era a sombra da cordinha do ventilador de teto. E que nossas mães iam nos achar loucas de não reclamar da pretensa macha.

As fofas toalhas dobradas em barquinho da cama de casal da pousada


- Vão achar que somos um casal. - Rimos. Feministas que somos, ser chamada de lésbica é meio recorrente. E não é um xingamento.
- Podemos dizer que somos irmãs gêmeas - ela disse.
Claro. Eu com meu 1,75m e ela japinha de 1,50 e um pouquinho ("quase 1,60m", ela vai dizer se ler. Ahã, sei).
Mas somos obviamente gêmeas. Nós duas pintamos o cabelo de vermelho.

Irmãs gêmeas

Nosso plano era chegar em Ilhabela na sexta e ainda pegar praia, mas já eram 17h, estávamos cansadas e chovia.
- Minha amiga disse que hoje chove, mas no final de semana faz sol. - A Nat disse. E eu, tolinha, acreditei.
Acabamos caindo no sono. Acordamos de noite, ainda debaixo de chuva, para passear na vila. Tudo lindinho e caríssimo (pagar R$10 em shampoo Wella, mais R$10 em condicionar vagabundo,  porque as duas menininhas se esqueceram completamente que cabelos tem que ser lavados, foi de chorar). Mas vimos lojinhas (e o vendedor lindíssimo que nos deu vontade de viver da nossa arte, as coisas que a natureza nos dá), artesanato e terminamos a noite comendo crepe.

 Espelho-olho-grego na galeria da vila

Dia 2: sábado, 23 de novembro

O celular estava programado para nos acordar 8h, mas meu relógio biológico deslocado me cutucou um pouco mais cedo que isso. Chovia.
- Mari... Vai chover o até quarta-feira. - A Nat me disse.
E em depressão eu fui checar a previsão do tempo no celular. Chuva, chuva e mais chuva.
- Não acredito que gastei uma fortuna em gasolina e dirigi 7h pra pegar chuva!
Respiramos fundo e decidimos que foda-se, o final de semana ia ser incrível. A gente veio de Belém, ninguém é tapioca. Tá em Ilhabela, é pra se molhar!
Colocamos nossos biquinis e fomos tomar café. Ele só começava a ser servido 8:30h, e as mocinhas que trabalhavam lá não nos deixaram começá-lo mais cedo, apesar de tudo já estar servido. ficamos batendo fotos da pousada para matar o tempo. Pena que os beija-flor e periquitos eram mais tímidos e não se deixavam clicar.


O café da manhã, como bom café de hotel, era infinito. E depois de muito comer fomos pedir dicas de passeios na recepção. Nosso plano era ir para a praia de Bonete, mas elas ligaram para uma agência de viagem e pelo clima eles só estavam fazendo passeio de jeep até a Praia Castelhano, com posível passagem na Cachoeira do Gato. Topamos. 10h o jeep foi nos pegar na pousada, e enquanto esperávamos na agência de viagem fomos nos informar sobre mergulho.
- R$350 por pessoa - disse a atendente, com a maior naturalidade do mundo.
Dessa vez, faltou $tempo pra gente mergulhar. Mas na próxima com certeza a gente encara.
Ainda na espera, uma moça a mim desconhecida surgiu:
- Não me diga que tu és a Natália!
Sotaque belenense delicioso e inconfundível. Mais tarde no mesmo dia fui oficialmente conhecê-la: Aline, ex-professora da Nat, trinta e pouquinhos anos. Divertidíssima. Saindo de relacionamento, contando histórias e recomendando botecos em Vila Madalena. Provando mais uma vez que o mundo é pequeno e paraenses tem imã. Fomos no mesmo jeep.
O passeio começa em uma trilha no meio de um trecho de serra com Mata Atlântica. A neblina e a chuva davam um ligeiro ar de filme de terror, mas tudo era lindo.







De início você se pergunta se o jeep era mesmo necessário, porque acha que seu carrinho (1.0!) dá conta. Aí a estrada vira de barro e e o jeep atravessa um rio. É, um rio. Ok, jeep necessário. E divertido.
Chegamos à praia. Linda, e a neblina parecia só deixá-la mais bonita. Desculpem o excesso de fotos, mas essa é a hora em que a minho verborragia é contida e eu deixo as fotos falarem.







Logo seguimos para a trilha para a Cachoeira do Gato. Chçao escorregadio e o guia andava rápido. Quase cai algumas vezes, e me dei conta que também era a primeira vez que fazia uma trilha sem uma figura masculina - pai, namorado - cuidando de mim, estendendo a mão para me ajudar. E foi mais um momento girl power da viagem. Ei, eu consigo fazer isso sozinha! Nem é difícil!
Chegamos à cachoeira com tênis imprestavelmente imundos e um sorrisão no rosto. Lá de onde eu venho não tem cachoeira. A água estava uma delícia - especialmente se por delícia você quer dizer gelada de bater os dentes. Adorei.


Depois voltamos pela trilha, almoçamos e passamos um tempo na praia. Na volta, comecei a sentir as picadas de inseto - havia esquecido de renovar o repelente pós- cachoeira. Mas foi só de noite, no hotel, que vi que parecia que eu tinha catapora de novo. Borrachudos não tem dó nem piedade. Paciência. Valeu a pena. Adorei, mesmo. Apesar de ainda estar me coçando.
Depois desse dia comprido, tomamos banho e cochilamos. E de noite pegamos a Aline e fomos em busca do agito em Ilhabela. Acabamos bebericando e jogando conversa fiada em um Irish Pub que vendia temaki, sondando o garçom em busca de festas ("O que são aquelas luzes ali?" "Não sei, vou descobrir..." E algum tempo depois: "Um casamento!". Ele, muito prestativo, acabou nso indicando a "balada da noite" - não sem antes perguntar em qual praia iriamos no dia seguinte), ouvindo o samba que vinha de outro bar lá perto e tentando adivinhar para onde iam as pessoas intrépidas que passavam andando sem guarda-chuva debaixo da chuva fria, com suas bebidas. 1:30h pagamos a conta e convencemos o garçom a nos emprestar o guarda-chuva dele. Fomos ao bar de samba só para ver a saideira (sério, ele falou "agora a saideira" na hora que a gente entrou). Fomos à outra balada recomendada, pescoçamos de fora e vimos que estava mega vazio. É, nada de noitada. Tudo bem, amanhã tem praia! E eu e a Nat decidimos que a Aline entrou em nossas vidas para eu e ela começarmos a botecar em Vila Madalena. Um elemento catalisador, como no tarô que jogamos.

Dia 3: domingo, 24 de novembro


Apesar de termos ido dormir quase 3h, acordamos às 8h, para aproveitar o último dia.
- Nat, tá ouvindo isso? - Perguntei com um sorrisão na cara.
- O que?
- O som da não chuva! Não tá chovendo!!!
Não tava mesmo. Depois tava. Depois não tava. Que se dane. Tudo lindo.
Biquini, café; e fomos rumo às praias. Passamos na frente de várias de carro, descemos rapidinho. Acabamos parando na Praia Grande, depois da praia seguinte ter quisto nos cobrar R$15 de estacionamento. Fomos andar na areia, sentir o mar. A cor do mar é uma ofensa de tão bonita.






E então surgiram as pedras. Um trecho grandinho até de grandes pedras tapando a passagem.
- O que a gente faz?
- Vamos por elas! - Sugeri.
A ideia foi minha, mas logo me deu medinho de cair e me estatelar no chão. E pela enésima vez na viagem me dei conta que também nunca tinha feito aquilo sem a figura masculina protetora, segurando a minha mão e me dizendo pra seguir os passos dele e tomar cuidado com a pedra escorregadia. Mas ei, eu podia! Podia e posso, qualquer coisa. Não preciso que cuidem de mim. E de repente a molecagem se tornou libertadora - eu e aquela japinha, uma das minhas pessoas favoritas no mundo todo, podemos fazer qualquer coisa! Somos fodas! Fodam-se os papeis de gênero, o que esperam de mim, a imposição social de que eu tenho que arranjar uma cara metade. Eu me viro! Eu arranho a mão, sento na pedra, piso em falso. Mas consigo chegar no outro lado. Eu sou foda (digdin digdin)! E todas aquelas pedras se tornaram metafóricas, num daqueles momentos bestas e maravilhosos em que tudo faz sentido.


 Dois momentos de reflexão nas pedras


Chegamos vivas e bem do outro lado. E aí eu fui pro mar, fomos pro mar. Meu mar. Cheias de planos e risadas e pensando como a viagem foi incrível e fazendo milhares de planos pro futuro (precisamos mesmo do português errado dos paulistas).
Viajar é incrível. E acho que pela primeira vez perdoei de verdade o rapaz que escolheu o mundo e não a mim. Eu não posso competir com o mundo. E eu também quero o mundo. Somos tão jovens, e há tanta vida. E sempre seremos jovens para nos acomodar com o que não estiver bom. (Pode seguir sua vida e ser feliz, baby. Farei o mesmo, estou fazendo).
Eu não quero esperar droga nenhuma, eu não acredito em "queria". Eu quero muito tudo, e quero agora.

Depois disso, voltamos para o hotel, tomamos banho, fechamos conta e seguimos viagem. A Nat voltou dirigindo, fomos pela Tamoios. Serra, obra, chuva, neblina. Tudo sensacional. Todos os nossos skills novamente testados e uma excelente trilha sonora no pen drive do Darth Vather da Nat no meu rádio. Chegamos em Sampa nos sentindo mega poderosas, porque nós somos.
Foi a primeira das nossas viagens incríveis.

Um comentário:

Nat disse...

lembrando que a especialidade da casa do restaurante “Burguesia Fascista” devia ser coxinhas... eu tenho 1,56, logo estou sim mais perto do 1,60 do que do 1,50... hunf! (mão na cintura e viradinha de pescoço de despeito)... e, sim! Lógico que somos irmãs gêmeas... veja os nossos cabelos ruivos naturais... e o GPS do meu cel foi guerreiro, tá? Nada demais ele ter colocado a gente dentro do tietê... e nooossa... mta vontade de perguntar se aquele vendedor da villa estava a venda, não? E não se esqueça que o Irish Pub também era conhecido por nós como “aquele de quina que ontem eu vi uma barata correndo em cima da mesa”, ou simplesmente “aquele da barata”, como um apelido carinhoso. E sim! Somos foda! Lembra da minha amiguinha de 70 aninhos que sempre apontava o dedinho no espelho e dizia “você é foda, baixinha”... e foi mais desesperador dirigir na marginal do que na Tamoios com obras, neblina e chuva, devo dizer... aaahhhh!!! Foi o máximo mesmo!!! a próxima é Brotas! E tb vai ser igualmente foda! Amo tu!