Semana passada me despedi do que me era quase um ente querido - a Juu, meu primeiro carro.
Lembro do nosso primeiro contato: eu, dezoito anos na cara e permissão para dirigir recém adquirida, chegando na minha linda casinha de Belém depois de uma viagem. E aquele palio preto na garagem, com um laçarote enorme e um papel impresso. Meus pais são os bobos.
Eu e a Juu vivemos grandes aventuras. Acho que nem vou lembrar tudo em um post só...
Lembro da sensação de que todos os carros iam me atacar na rua, e as buzinas que na minha cabeça (e na realidade também, muitas vezes) eram sempre pra mim. Dirigir é mesmo o tipo de coisa que não dá para esperar o medo passar para começar. E, se eu aprendi, todo mundo consegue.
Lembro da tristeza sem tamanho do primeiro arranhão. E dos meus pais dizendo que é assim mesmo, que acontece... E, lá pelo terceiro ou quarto, meu pai dizendo que ia me comprar uma bóia de navio, para não bater no porto.
Lembro da primeira vez que eu bati o carro.
(Veja bem, de lá pra cá foram já uns 7 anos. Minha direção melhorou, ok?)
(Avancei uma preferencial. Foi tão rápido que eu nem tive tempo de me assustar. Tranquilizei a moça em que bati, que chorava litros enquanto o marido estúpido brigava com ela, por ter tido o carro batido. Liguei para minha mãe:
- Mãe, tá tudo bem, ninguém se machucou, mas... eu bati o carro.
Foi minha maior batida)
Lembro de outra batidinha, essa bem boba. Eu estava indo buscar minha irmã na casa de uma amiga, descalça e mal-vestida. Bati no carro de um molecote feito eu. Nossos dois carros se arranharam um pouco, eu disse que ia pagar o conserto e no dia seguinte nos encontramos no funileiro.
O rapaz batido foi mega gentil. Pediu pro cara cotar o conserto do meu carro, foi comigo em loja. Eu lá, comovida com como ainda há bondade no mundo. Aí de noite ele me liga:
- Hm... Você quer sair hoje à noite?
Pois é. Eu sou sexy até em batida de carro.
Lembro de batidas mais normais e simpáticas, com pessoas conversando e resolvendo sem dramas ou cantadas.
E do velho dirigindo um crossfox que me bateu e fugiu. Não um moleque em um fusca. Morri de raiva.
Em um dia chuvoso de Belém, meu namorado da época perguntou:
- Ladrão rouba na chuva?
Naquela mesma noite, tivemos a resposta, saindo da casa dele. Abordados por três moleques que de tão novos eu não acreditei quando a arma me exigiu a chave do carro.
E assim a Juu foi roubada.
Foi encontrada no dia seguinte, sem rádio apenas. E sem o mundo de mudas de roupa e tranqueiras que eu sempre levava nela.
Traumas à parte, a parte divertida foi ir fazer o laudo no IML, e ver as máquinas de perícia.
Então eu passei no vestibular para Campinas. E a Juu veio junto, de transportadora.
(eu adorava quando as pessoas perguntavam se eu tinha vindo dirigindo de Belém. E sempre achei a placa do Pará um troféu. Me arrependo de não ter roubado-a pra mim; agora a Juu virará de Campinas para ser revendida...)
No meu primeiro semestre, a Juu não tinha garagem. Dormiu seis meses nas ruas escuras e escusas de Barão Geraldo, e nada de mal aconteceu. Só roubaram as tampinhas dos pneus.
(e, em algum momento daquele ano, o lacre da placa sumiu. Nunca consertei. Nunca fui multada por isso. O acaso protege os irresponsáveis).
No segundo semestre, já brother dos vizinhos, comecei a usar a garagem de um deles.
No final do ano, eu e a Roomie nos mudamos. E fizemos a mudança na Juu.
Primeiro as coisas grandes: colchões, cadeiras, varal, escrivaninhas. Ficaram na casa de um amigo.
E depois, todo o resto. Roupa, espelho, livros, coisas. Uma kitnet. Dentro da Juu, parada por três meses.
A Juu é uma pickup. E nunca deu problema por ter ficado parada nas férias.
Na nossa segunda kitnet, o portão fechava sozinho. E logo na primeira semana, fechou na Juu. E eu não conseguia tirá-la de lá de jeito nenhum. Ao lado, uma obra.
Eu e o namorado da época fomos pedir ajuda para os pedreiros da construção. Que, muito gentis, carregaram meu carro no braço.
Legal de se ver.
Foi de Juu que viajei de carro entre amigos apenas pela primeira vez. Foi só um final de semana em Sampa, mas me senti em um seriado americano. Divertidíssimo.
Depois sozinha cheguei até Taubaté e Campos do Jordão; e acompanhada fui até Parati. E ainda preciso ir muito mais longe.
No início do meu terceiro ano de faculdade, fui fazer intercâmbio nos EUA. E a Juu? Foi de novo de transportadora para Belém, com todas as minhas coisas dentro. Seis meses depois, voltou. Quebrou a antena na volta. Demorei um ano e meio para consertar, e fiquei encantada ao ver que meu rádio funcionava.
Uma vez, eu e o namorado da época fomos ver o show do Frejat em Jaguariuna. Na volta, ele dirigindo, se distraiu e fez uma curva muito íngreme. Resultado: subimos o guard rail. E lá ficamos, presos, com frio, de madrugada, no meio da rodovia. Até o guincho chegar.
A Juu tinha um milhão de probleminhas: o farol tava meio quebrado. O tampo do porta-mala também. O teto já estava quase branco, de tão desbotado. E ainda assim, eu adorava aquele carro.
E então comecei a estagiar e dirigir 150km por dia. E a Juu de repente ficou velha. E meus pais tinham um carro para vender. Decidimos trocar dois em um.
Foi difícil me despedir. Tão difícil que os documentos de venda demoraram mais de mês para ficar prontos, e nesse meio tempo um galho caiu e amassou o capô e bateram o para-choque. A Juu não queria ir embora.
Carro novo é uma delícia. Batizei de Juu segunda; para os íntimos, Juju.
- Você te algo para tirar do carro? - Perguntou o vendedor, quando finalmente fui retirar na concessionária.
Eu ri. Foram duas viagens para tirar tudo. Ele ficou chocado de ver que até o origami-enfeite que a Roomie me deu eu já tinha mudado.
Espero que a Juu arranje um bom dono. Vou sentir saudades.
Lembro do nosso primeiro contato: eu, dezoito anos na cara e permissão para dirigir recém adquirida, chegando na minha linda casinha de Belém depois de uma viagem. E aquele palio preto na garagem, com um laçarote enorme e um papel impresso. Meus pais são os bobos.
Eu e a Juu vivemos grandes aventuras. Acho que nem vou lembrar tudo em um post só...
Lembro da sensação de que todos os carros iam me atacar na rua, e as buzinas que na minha cabeça (e na realidade também, muitas vezes) eram sempre pra mim. Dirigir é mesmo o tipo de coisa que não dá para esperar o medo passar para começar. E, se eu aprendi, todo mundo consegue.
Lembro da tristeza sem tamanho do primeiro arranhão. E dos meus pais dizendo que é assim mesmo, que acontece... E, lá pelo terceiro ou quarto, meu pai dizendo que ia me comprar uma bóia de navio, para não bater no porto.
Lembro da primeira vez que eu bati o carro.
(Veja bem, de lá pra cá foram já uns 7 anos. Minha direção melhorou, ok?)
(Avancei uma preferencial. Foi tão rápido que eu nem tive tempo de me assustar. Tranquilizei a moça em que bati, que chorava litros enquanto o marido estúpido brigava com ela, por ter tido o carro batido. Liguei para minha mãe:
- Mãe, tá tudo bem, ninguém se machucou, mas... eu bati o carro.
Foi minha maior batida)
Lembro de outra batidinha, essa bem boba. Eu estava indo buscar minha irmã na casa de uma amiga, descalça e mal-vestida. Bati no carro de um molecote feito eu. Nossos dois carros se arranharam um pouco, eu disse que ia pagar o conserto e no dia seguinte nos encontramos no funileiro.
O rapaz batido foi mega gentil. Pediu pro cara cotar o conserto do meu carro, foi comigo em loja. Eu lá, comovida com como ainda há bondade no mundo. Aí de noite ele me liga:
- Hm... Você quer sair hoje à noite?
Pois é. Eu sou sexy até em batida de carro.
Lembro de batidas mais normais e simpáticas, com pessoas conversando e resolvendo sem dramas ou cantadas.
E do velho dirigindo um crossfox que me bateu e fugiu. Não um moleque em um fusca. Morri de raiva.
Em um dia chuvoso de Belém, meu namorado da época perguntou:
- Ladrão rouba na chuva?
Naquela mesma noite, tivemos a resposta, saindo da casa dele. Abordados por três moleques que de tão novos eu não acreditei quando a arma me exigiu a chave do carro.
E assim a Juu foi roubada.
Foi encontrada no dia seguinte, sem rádio apenas. E sem o mundo de mudas de roupa e tranqueiras que eu sempre levava nela.
Traumas à parte, a parte divertida foi ir fazer o laudo no IML, e ver as máquinas de perícia.
Então eu passei no vestibular para Campinas. E a Juu veio junto, de transportadora.
(eu adorava quando as pessoas perguntavam se eu tinha vindo dirigindo de Belém. E sempre achei a placa do Pará um troféu. Me arrependo de não ter roubado-a pra mim; agora a Juu virará de Campinas para ser revendida...)
No meu primeiro semestre, a Juu não tinha garagem. Dormiu seis meses nas ruas escuras e escusas de Barão Geraldo, e nada de mal aconteceu. Só roubaram as tampinhas dos pneus.
(e, em algum momento daquele ano, o lacre da placa sumiu. Nunca consertei. Nunca fui multada por isso. O acaso protege os irresponsáveis).
No segundo semestre, já brother dos vizinhos, comecei a usar a garagem de um deles.
No final do ano, eu e a Roomie nos mudamos. E fizemos a mudança na Juu.
Primeiro as coisas grandes: colchões, cadeiras, varal, escrivaninhas. Ficaram na casa de um amigo.
E depois, todo o resto. Roupa, espelho, livros, coisas. Uma kitnet. Dentro da Juu, parada por três meses.
A Juu é uma pickup. E nunca deu problema por ter ficado parada nas férias.
Na nossa segunda kitnet, o portão fechava sozinho. E logo na primeira semana, fechou na Juu. E eu não conseguia tirá-la de lá de jeito nenhum. Ao lado, uma obra.
Eu e o namorado da época fomos pedir ajuda para os pedreiros da construção. Que, muito gentis, carregaram meu carro no braço.
Legal de se ver.
Foi de Juu que viajei de carro entre amigos apenas pela primeira vez. Foi só um final de semana em Sampa, mas me senti em um seriado americano. Divertidíssimo.
Depois sozinha cheguei até Taubaté e Campos do Jordão; e acompanhada fui até Parati. E ainda preciso ir muito mais longe.
No início do meu terceiro ano de faculdade, fui fazer intercâmbio nos EUA. E a Juu? Foi de novo de transportadora para Belém, com todas as minhas coisas dentro. Seis meses depois, voltou. Quebrou a antena na volta. Demorei um ano e meio para consertar, e fiquei encantada ao ver que meu rádio funcionava.
Uma vez, eu e o namorado da época fomos ver o show do Frejat em Jaguariuna. Na volta, ele dirigindo, se distraiu e fez uma curva muito íngreme. Resultado: subimos o guard rail. E lá ficamos, presos, com frio, de madrugada, no meio da rodovia. Até o guincho chegar.
A Juu tinha um milhão de probleminhas: o farol tava meio quebrado. O tampo do porta-mala também. O teto já estava quase branco, de tão desbotado. E ainda assim, eu adorava aquele carro.
E então comecei a estagiar e dirigir 150km por dia. E a Juu de repente ficou velha. E meus pais tinham um carro para vender. Decidimos trocar dois em um.
Foi difícil me despedir. Tão difícil que os documentos de venda demoraram mais de mês para ficar prontos, e nesse meio tempo um galho caiu e amassou o capô e bateram o para-choque. A Juu não queria ir embora.
Carro novo é uma delícia. Batizei de Juu segunda; para os íntimos, Juju.
- Você te algo para tirar do carro? - Perguntou o vendedor, quando finalmente fui retirar na concessionária.
Eu ri. Foram duas viagens para tirar tudo. Ele ficou chocado de ver que até o origami-enfeite que a Roomie me deu eu já tinha mudado.
Espero que a Juu arranje um bom dono. Vou sentir saudades.
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