Acabo de voltar da manifestação de Campinas. Exausta, com pé inchado e cheia de coisas a dizer.
A manifestação começou linda. Já vi gente recriminando achar lindo, mas eu acho - primeiro o fato de terem saído mais de 500 pessoas da Unicamp, nos ônibus do DCE ou de linha; e nenhum motorista de ônibus de linha se recusou a abrir a porta de trás pra gente entrar. Depois as pessoas aplaudindo na rua enquanto a gente passava. E aí aquele mundaréu de gente, querendo um mundo melhor.
Querer um mundo melhor é genérico pra caralho, concordo. Manifestação é feita de pautas! Eu fui por tarifa zero. Aqui faço um mea culpa - tenho carro, e nunca tinha parado pra pensar em como ônibus é caro até começar a dar aula no cursinho no DCE, esse ano; e ter alunos que deixam de frequentar às aulas por não terem dinheiro pro busão. Aí fazendo contas você vê que, pra andar de ônibus duas vezes por dia, 20 dias por mês, se gasta 1/5 do salário mínimo. Pelo DIREITO de ir e vir. O transporte é PÚBLICO! Fui me juntar à multidão e gritar:
"Mãos ao alto/ Três reais é um assalto!"
TARIFA ZERO JÁ!
No mundaréu de gente (estimaram em 50 mil) tinha de tudo - de gente que queria tarefa zero a quem queria pedir impeachment da Dilma e chamar ela de sapatona. Aí chegamos aquele problema da falta de foco - porque eu não sou dona do movimento, mas dá vergonha de estar do lado de gente que faz piada homofóbica, canta o hino dez mil vezes e - pânico total - diz que ia ser legal fechar o congresso nacional. Acho lindo estar todo mundo na rua lutando, mas a gente precisa saber porque está lutando, e eu não quero lutar com essa galerinha com pinta de fascista - que sim, tava na rua também.
Mas essa era a minoria. A maioria tava gritando palavras de ordem junto, chamando o pessoal pra rua. Muito legal ver apoio das pessoas nos prédios, ver a multidão crescendo.
Andamos tranquilamente da Francisco Glicério até a prefeitura. Foi quando eu percebi que ia ter problemas. Uns caras estranhos surgiram, sem camisa, com máscara na cara. E começaram a gritar:
- Bora queimar busão! Bora queimar busão!
A multidão logo respondeu:
- Sem vandalismo! Sem vandalismo!
Mas eles responderam:
- Com vandalismo! Com vandalismo!
E não sei se foram as mesmas pessoas, mas logo se ouviram as bombas de gás. Haviam começado a quebrar a prefeitura, e a PM respondeu pesado - foi o que me disseram; eu só ouvi as bombas. O pessoal do coletivo Domínio Público (DP) - o coletivo que organiza o DCE da Unicamp-, que já estava com megafone puxando as palavras de ordem, puxou a ideia de sentar. E a gente sentou. Bombas. Esperamos, acalmamos, até decidirmos nos aproximar um pouco mais, e ficar sentados. Não vi o que aconteceu, estava ainda bastante longe da prefeitura. Mas ouvi rojões. E então, mais bombas. E eu, que estava meio longe, cobri o rosto e só não saí correndo para a gente não se atropelar.
Bombas de efeito moral não são legais. Minha garganta ainda doi.
Tumulto. Parte das pessoas se dispersaram. Raiva do quebra-quebra que não nos representava - estávamos o tempo todo cantando "sem vandalismo!". Raiva do ardor das bombas. Telefonemas para tranquilizar família; que helicópteros filmavam a bagunça e passavam na tv.
Depois de muito tempo de dispersão e de tentar refazer grupo, remontamos o remanescente do movimento. Que, apesar de menor, estava mais bonito. Porque que resistiu às bombas estava lutando pelas mesmas coisas, e eram coisas que eu apoio. Meus gigantes parabéns ao DP, pelo protagonismo. Muito legal também ver muita gente da minha universidade, muitos amigos.
Andamos muito mais ainda. Pedimos para quem apoiasse nos prédios piscar a luz, e muitas luzes piscavam. Ficamos em silêncio ao passar perto de hospital. Passávamos facilmente informações em jogral. Sentávamos. Falávamos palavras de ordem. E, nessa hora, helicóptero nenhum filmou.
Saí da manifestação mais de 22h, quando ela já tinha se dispersado bastante. Voltei para casa de ônibus com alguns amigos, mais uma vez me sentindo apoiada pelo motorista. Com a sensação que ainda há muito para lutar, muito para mudar; e que esse movimento todo corre o risco de virar uma bagunça... Mas a gente não vai deixar.
Passe livre já!
A manifestação começou linda. Já vi gente recriminando achar lindo, mas eu acho - primeiro o fato de terem saído mais de 500 pessoas da Unicamp, nos ônibus do DCE ou de linha; e nenhum motorista de ônibus de linha se recusou a abrir a porta de trás pra gente entrar. Depois as pessoas aplaudindo na rua enquanto a gente passava. E aí aquele mundaréu de gente, querendo um mundo melhor.
Querer um mundo melhor é genérico pra caralho, concordo. Manifestação é feita de pautas! Eu fui por tarifa zero. Aqui faço um mea culpa - tenho carro, e nunca tinha parado pra pensar em como ônibus é caro até começar a dar aula no cursinho no DCE, esse ano; e ter alunos que deixam de frequentar às aulas por não terem dinheiro pro busão. Aí fazendo contas você vê que, pra andar de ônibus duas vezes por dia, 20 dias por mês, se gasta 1/5 do salário mínimo. Pelo DIREITO de ir e vir. O transporte é PÚBLICO! Fui me juntar à multidão e gritar:
"Mãos ao alto/ Três reais é um assalto!"
TARIFA ZERO JÁ!
No mundaréu de gente (estimaram em 50 mil) tinha de tudo - de gente que queria tarefa zero a quem queria pedir impeachment da Dilma e chamar ela de sapatona. Aí chegamos aquele problema da falta de foco - porque eu não sou dona do movimento, mas dá vergonha de estar do lado de gente que faz piada homofóbica, canta o hino dez mil vezes e - pânico total - diz que ia ser legal fechar o congresso nacional. Acho lindo estar todo mundo na rua lutando, mas a gente precisa saber porque está lutando, e eu não quero lutar com essa galerinha com pinta de fascista - que sim, tava na rua também.
Mas essa era a minoria. A maioria tava gritando palavras de ordem junto, chamando o pessoal pra rua. Muito legal ver apoio das pessoas nos prédios, ver a multidão crescendo.
Andamos tranquilamente da Francisco Glicério até a prefeitura. Foi quando eu percebi que ia ter problemas. Uns caras estranhos surgiram, sem camisa, com máscara na cara. E começaram a gritar:
- Bora queimar busão! Bora queimar busão!
A multidão logo respondeu:
- Sem vandalismo! Sem vandalismo!
Mas eles responderam:
- Com vandalismo! Com vandalismo!
E não sei se foram as mesmas pessoas, mas logo se ouviram as bombas de gás. Haviam começado a quebrar a prefeitura, e a PM respondeu pesado - foi o que me disseram; eu só ouvi as bombas. O pessoal do coletivo Domínio Público (DP) - o coletivo que organiza o DCE da Unicamp-, que já estava com megafone puxando as palavras de ordem, puxou a ideia de sentar. E a gente sentou. Bombas. Esperamos, acalmamos, até decidirmos nos aproximar um pouco mais, e ficar sentados. Não vi o que aconteceu, estava ainda bastante longe da prefeitura. Mas ouvi rojões. E então, mais bombas. E eu, que estava meio longe, cobri o rosto e só não saí correndo para a gente não se atropelar.
Bombas de efeito moral não são legais. Minha garganta ainda doi.
Tumulto. Parte das pessoas se dispersaram. Raiva do quebra-quebra que não nos representava - estávamos o tempo todo cantando "sem vandalismo!". Raiva do ardor das bombas. Telefonemas para tranquilizar família; que helicópteros filmavam a bagunça e passavam na tv.
Depois de muito tempo de dispersão e de tentar refazer grupo, remontamos o remanescente do movimento. Que, apesar de menor, estava mais bonito. Porque que resistiu às bombas estava lutando pelas mesmas coisas, e eram coisas que eu apoio. Meus gigantes parabéns ao DP, pelo protagonismo. Muito legal também ver muita gente da minha universidade, muitos amigos.
Andamos muito mais ainda. Pedimos para quem apoiasse nos prédios piscar a luz, e muitas luzes piscavam. Ficamos em silêncio ao passar perto de hospital. Passávamos facilmente informações em jogral. Sentávamos. Falávamos palavras de ordem. E, nessa hora, helicóptero nenhum filmou.
Saí da manifestação mais de 22h, quando ela já tinha se dispersado bastante. Voltei para casa de ônibus com alguns amigos, mais uma vez me sentindo apoiada pelo motorista. Com a sensação que ainda há muito para lutar, muito para mudar; e que esse movimento todo corre o risco de virar uma bagunça... Mas a gente não vai deixar.
Passe livre já!
Nenhum comentário:
Postar um comentário