domingo, 11 de novembro de 2012

O Rei do Bandejão


Era uma vez, em uma universidade muito distante, um restaurante mágico. Nele havia caldeirões mexidos por pessoas que faziam a mágica de sobreviver com um salário mínimo, de onde brotava quantidades enormes de comida, duas vezes por dia, para alimentar por dois dinheiros estudantes famintos. Os estudantes comiam em bandejas mágicas, que conseguiam deixar palmito preto e o feijão frio em dia quente. Era daquela bandeja que brotava a força vital dos alunos; eram por elas que eles pegavam ou furavam filas no sol e na chuva, no inverno e no verão. Era a força vital deles que sempre ficava grudada no fundinho da bandeja que deveria estar limpa, não resto do purê da refeição anterior. Ao redor das bandejas se conversava e se ria e se reclamava e se falava de prova e de religião, política, video-game e de trepadas.
Era, enfim, um lugar encantado.
Um dia, a universidade foi assolada pela implementação da biometria nas bibliotecas. Por algum motivo incompreensível, os governantes locais acharam que seria legal mandar todo mundo cadastrar a digital, para que ninguém mais pegasse livros usando carteiras que não a sua. Era o fim da camaradagem com o amigo suspenso. Sem opção, o povo foi a biblioteca obedecer as ordens.
Foi nesse processo de cadastramento que um aluno percebeu que na ficha com seus dados constava um segredo que todos criam para sempre perdido - a quantidade de dinheiros já gasto em bandejões desde o princípio da faculdade. Tal informação era fundamental para todos, porque... somos todos estudantes universitários e adoramos dados inúteis. E foi assim que surgiu uma batalha que revelaria quem era o mais forte - o concurso Rei do Bandejão, instituido pela minha turma, para saber quem já tinha comido mais vezes. O vencedor ganharia fama, glória e uma camiseta com seu apelido.
E logo que vi o concurso eu soube o nobre cavaleiro que poderia ser o vencedor - meu namorado, que já enfrentou ovo frito e peixe a escabeche; exames, julhos e janeiros, sempre bandejando religiosamente duas vezes por dia. Ele era merecedor de tal glória. Mas o concurso exigia a realização de uma prova - o cartão universitário da pessoa deveria ser apresentado para que os dados pudessem ser conferidos. E meu nobre cavaleiro está em terras distantes comendo comida apimentada, incapaz de apresentar-se pessoalmente para cumprir sua missão.
Não me conformei com tamanha injustiça, e parti em minha própria batalha em busca das verdades. Munida de toda a cara de pau que adquiri nesses anos de faculdade, comecei minha missão com a moça responsável pelo cadastramento:
- É um pedido meio bobo, mas... Meu namorado está em intercâmbio e gostaria de saber quantas vezes já foi no bandejão. Tem como? Tenho até um procuração dele... - Nota: a procuração existe mesmo e foi deixada para caso algum problema surgisse. Eu e ele decidimos que esse era um problema.
Achei que ela fosse me olhar como se eu fosse uma louca, mas ela me deu um sorriso simpático e apontou um senhor no balcão lá perto:
- Pergunta pra ele, ele é o responsável pelo cadastramento.
Falei novamente minha história para o senhor, e mais uma vez fui surpreendida pela boa vontade. As pessoas estavam me levando a sério! Ele disse que a procuração não era necessária, e gastou uns bons vinte minutos tentando acessar o sistema. Não conseguiu, mas pegou meu e-mail e prometeu enviar os dados naquele dia mais tarde.
Esperei ansiosamente a resposta, mas ela não veio. O dia seguinte amanheceu chuvoso. Fui à biblioteca debaixo de pequenas gotas, novamente repetir o pedido. A moça me explicou, meio chateada, que não dava mesmo para ver sem o cartão. Vi que teria que usar minha última cartada: ir até a DAC.
Música épica.
Amar é andar debaixo de chuva para pegar uma senha de informação, esperar ser chamada e perguntar para a moça:
- Tem como ver o número de vezes que uma pessoa bandejou sem o cartão dela?
E ao contrário das expectativas, mais uma vez todos pareciam torcer pelo êxito de minha busca. Dois funcionários foram remexer os arquivos e depois ficar mexendo no computador num esforço sincero para encontrar o número de vezes que uma pessoa já bandejou.
Coisas que só a Unicamp te proporciona. Ah, essa jornada!
E o desfecho?
Mas infelizmente o sistema era implacável. Não pude ver o número de bandejões dele. Outro cavaleiro ganhou a coroa, e a nós restará a dúvida até o retorno de meu amor.

Fim.

3 comentários:

Anônimo disse...

Marina, texto excelente, como todos que você rabisca.

Túlio Prado disse...

Excelente!! ahuahuah

Nati akemi disse...

XD uma pena neh