segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

É como andar de bicicleta

Era dezembro. Quase a segunda quinzena, na época em que mesmo os exames (recuperação, para os paraenses) estão terminando. Quase férias. Eu estava andando pela FEM (Faculdade de Engenharia Mecânica) quando um amigo me vê e me aborda:
- O que você está fazendo aqui?
Ele estava surpreso. Eu sorri, muito animada:
- Eu estou aprendendo a andar de bicicleta! Eu venho todo dia aqui na Unicamp pra isso.
Ele continuou me olhando com a mesma cara. Há que se dizer que esse meu amigo é meio cínico.
Depois de uns instantes, ele se rendeu:
- Droga! Eu não sei se você está falando a verdade ou não!
Aí eu ri mesmo.
- É sério! Olha pra mim - Eu estava de tênis, camiseta e shorts de ginástica. Isso não quer dizer muita coisa, na verdade; em dezembro Campinas está sempre quente demais e como a Unicamp é tão perto de casa, eu, como muita gente, me sinto super dentro de casa. Todo mundo usa short/bermuda e chinelo. Já vi gente descabelada, com a roupa que dormiu na fila do bandejão. Mais de uma vez. Aí usar roupa de ginástica não é nada tão revelador. Mas havia a minha cara. Vermelha, muito vermelha. E suada. Eu estava até meio nojenta, pra ser honesta. Eu não tenho culpa. Estava quente demais. E eu estava aprendendo a andar de bicicleta.
Ele finalmente acreditou:
- Mas como???
Eu contei pra ele uma versão reduzida da históra. Agora eu vou contar para vocês a extendida:
Eu era uma criança bem grande, gorda e desajeitada. Eu não aprendi a andar de bicicleta quando as outras crianças aprenderam. E depois... Eu ficava com medo do "mas como?". Eu morria de vergonha de não saber andar de bicicleta. Achava que era a única no mundo. E esse era meu segredo.
Só lá pelos 18 eu fui conhecer outras pessoas com mais de seis anos que também não sabiam andar de bicicleta. Me senti muito menos esquisita, menos sozinha no mundo.
Meu pai aprendeu a andar de bicicleta adulto. Minha mãe sempre me repetia isso: ela, ele, uma bicicleta, um dia de chuva. Tenho na cabeça uma ideia bem romântica, filme antigo.
Eu cresci. Virei uma adulta, grande, um pouco menos gorda porém igualmente desajeitada. Mas em algum momento eu decidi que eu também queria aprender a andar de bicicleta. Em algum momento...
Quando eu passei na Unicamp, isso da bicicleta veio mais à tona. É um meio de transporte mega utilizado pelos alunos; acho até que a Unicamp devia se vangloriar disso - limpo, saudável. O mundo estudantil se divide entre quem vai andando e quem vai de bicicleta. Há também quem vá de ônibus. E a minoria que vai para a aula de carro (a maioria porque não mora no distrito onde a Unicamp fica; mas claro que tem também quem tenha preguiça de andar. Uma vez um vizinho meu me disse que eu era a única pessoa que ele conhecia que tinha um carro e ia andando. Mas parece muito errado. Eu pago uma fortuna para morar num lugar perto da Universidade, onde dá pra ir a pé. Pra que eu ia pegar o carro? É anti-ecológico e nada saudável. Sem falar que eu acordo andando pra aula, e me distraio conversando com a Roomie). E aí quem vai de bicicleta pergunta aos pedestres se eles pretendem arranjar uma bicicleta um dia. E muitos de nós somos forçados a responder:
- Não... EU não sei andar.
Nossa, somos muitos mesmo. Eu fiquei surpresa. Mas decidi mudar minha resposta:
- Não, eu não sei andar... Ainda.
Houve no primeiro ano de unversidade uma tentativa rápida de me ensinar, mas foi um evento isolado. Depois que comecei a namorar, o Namorado sempre dizia que ia me ensinar. Mais de um ano se passou, roubaram a bike do Namorado (pois é, Campinas não é só flores; longe disso), e eu não fui ensinada. Até um dia de outubro ou novembro, não lembro ao certo. O Namorado tinha que ir ao banco depois do almoço; nós e a rodinha de amigos que almoçamos juntos fomos com ele emprestar uma bicicleta para ele fazer o percurso mais depressa - nesse ano, a Unicamp começou um projeto muito legal e promissor chamado Mobic, que empresta bicicletas aos alunos para fazerem percursos dentro do Campus. E alguém surgiu com a ideia:
- Marina... Você quer andar de bicicleta?
Pensei rápido:
- Sim!
E foram uma ou duas horas hlárias no grande gramado na frente da biblioteca central, em plena Praça do Ciclo básico, com pessoas indo e vindo e me olhando, e meus amigos tentando:
1 - Me convencer que sim, é possível se manter sobre uma coisa que tem duas rodas tão finas
2 - Me convencer a pedalar
3 - Me empurrando e me segurando, me acompanhando enquanto eu tentava pedalar sozinha
4 - Me convencer que eu não ia cair quando eles me soltassem
5 - Me convencer a continuar pedalando quando eles me soltassem, e não simplesmente colocar os dois pés no chão.
5 - Inventando as técnicas mais criativas para me fazer começar a pedalar sozinha; "sai com a esquerda" (sou destra de mão, olho e pé), "pedala para trás", " se empurra do chão", "começa com o pedal embaixo", etc.
14h, eu estava conseguindo sair sozinha algumas vezes e dar umas voltas inseguras. Me sentindo a pessoa mais capaz do mundo - você se sente tão bem quando descobre que pode fazer o que antes não podia! - E muita suada, com calos nas mãos de me segurar com força como se isso fosse impedir minha queda, hematomas de bater a perna no pedal de metal e com os ombros muito vermelhos e ardidos do sol.
Muito feliz.
Um amigo meu que vive dizendo que vai para o inferno disse que ganhou créditos no céu. Do céu eu não entendo. Ele certamente ganhou pontos comigo.
Foi minha primeira aventura de bicicleta. Aí eu tomei gosto pela coisa. Convenci o namorado a me ajudar outras vezes.
Muito obrigada, Mobic! A mocinha responsável pelo empréstimo sorria pra mim, simpática. Ela não sabia que eu estava aprendendo. Imagino que se perguntava por que raios eu pegava a bicicleta e saia arrastando ela, e porque voltava tão suada e sorridente.
Eu caí.
Eu me cortei.
Minha perna ficou horrível de tão roxa.
Minhas mãos ficaram cheias de calos.
Eu me lembrei de sempre passar protetor no rosto e pescoço e de usar camisetas com manguinhas.
Na praça do Ciclo Básico. Verdade seja dita, não estava assim tão movimentado. Mas as pessoas passavam e olhavam.
O namorado me dizia para não apertar o guidon com tanta força. Para não morder os lábios, porque se eu caísse eu ia me machucar. Me mandou cantar.
Dizia para eu não jogar o corpo na curva. Para controlar o quadril. Para não freiar direto com os pés.
E sempre dizia que eu estava indo muito bem.
E eu fui acreditando.
Porque dizem que tem coisa que a gente só aprende criança. Nosso cérebro está mais maleável, sei lá. Há ciência nisso, mas... Tem tanta coisa que a gente não aprende porque se priva de tentar!
Não sei se quando eu era criança eu tinha mais facilidade. Não lembro. O que sei é que agora, adulta, tive que aprender o que as crianças sabem: tive que perder o medo de cair.
E eu pedalei.
Especialmente naquelas semanas em que eu já estava de férias e meu amigo se surpreendeu ao me encontrar, pedalei. Cantando.
E agora posso dizer cheia de orgulho: anda não sou uma exímia ciclista. Não sei se o Namorado já vai fazer pra mim a habilitação de bike-escola que me prometeu (enquanto eu treinava, ele dizia que faria uma camiseta de instrutor para ele; e eu faria uma para mim "não ria. VOcê já passou por isso. (Pode ser que não lembre, mas passou)". Mas se me perguntarem, eu respondo:
- Sim, eu sei andar de bicicleta.

Um comentário:

Natália Akemi disse...

Eu não sei andar de bicicleta. Espero que seja AINDA tbm.