quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Redação da Unicamp (post 2)


     Chamo-me Lucinda, mas ainda há quem me conheça apenas como "a filha do coronel Josué". Mamãe morreu ao me dar a luz; papai, desolado, por anos não me deu muita atenção. Cresci na fazenda, misturada aos moleques, filhos dos peões. Era difícil me ver sem uma camada grossa de lama fazendo as vezes de segunda pele, tais as nossas brincadeiras. Guerreávamos com esterco, tentávamos domar cavalos, coletávamos insetos para depois usá-los com isca para pesca, atirávamos casas de abelhas sobre os bois usando galhos e pontaria. Cada dia tinhamos uma nova ideia para uma aventura, e assim foi até meu décimo segundo aniversário, quando Maria Emília entrou na minha vida. "Invadiu" talvez fosse um termo melhor, pois a jovem, que sequer tinha o dobro da minha idade, encntou meu pai de tal maneira que, quando fui apresentada a ela, já estavam noivos. E após o casamento fui morar com a até então a mim desconhecida tia Rita, irmã de meu pai, porque minha madastra o convencera de que uma uma mocinha feito eu precisava de um tempo na capital para ganhar modos.
      O que Maria Emília não sabia, e tampouco creio que lhe importaria caso soubesse, é que tia Rita não era do tipo que dá modos. Era, isso sim, militante da ONG Vegan Staff. Participava de protestos e se envergonhava do irmão fazendeiro, que maltratava tanto os animais. Aceitara-me para me submeter a uma espécie de "catequese" vegetariana que levaria à salvação do mundo. E eu, que estava magoada, simplesmente encantei-me por ela; e entreguei-me quase sem resistência às crenças daquela tia fantástica de batas floridas. Logo fazia parte da ala jovem da ONG; protestava, queimava e panfletava.
      A primeira coisa que queimei foram minhas próprias botas de couro, "símbolo da injusta dominação dos animais pelo homem". segundo minha tia. Chorei encolhida à noite; as botas haviam sido de mamãe... Mas ela havia errado ao se casar com um bruto como papai, e estava também errada ao vestir cadáveres de inocentes. Essas foram só as primeiras de muitas lágrimas causadas pelas mudanças de hábito. Ao meio dia, voltando da escola, eu sempre passava defronte de uma churrascaria. O cheiro me fazia salivar e trazia lágrimas de culpa. E tia Rita às vezes via rodeios na tv, para xingar tal injustiça; se a lei proibia maus-tratos contra animais, como aquilo ainda ocorria? E era televisionado, humanos eram monstros! Eu concordava, mas tremia; meu íntimo ainda apreciava tais espetáculos.
      Houve um dia em que achei uma lagarta no apartamento e, em uma recaída de infância, atirei álcool sobre ela e então um fósforo aceso.Ri-me ao vê-la se contorcendo ao queimar, tia Rita me viue me deu um tapa, aos prantos. Aquilo também era uma vida! Ameacei fugir; ela me abraçou e me mostrou um papel com várias linhas que se bifurcavam, formando o que ela chamou de "árvore da vida". Todos os animais - mesmo as lagartas, que sequer piscam - eram nossos parentes e mereciam respeito. Amei-a ainda mais.
      Pouco mais de um ano após o casamento de meu pai, nasceu Heitor, meu irmãozinho. Tia Rita e eu fomos visitá-lo na fazenda. Meus antigos amigos me acharam uma chata, mas uma chata bela - todos tínhamos crescido, e creio que foi só este encantamento de novas descobertas que fez com que eles ainda falassem comigo, a garota que sequer matava mosquitos. Crescer dói.
      No braço de Heitor, a típica marca de vacina produziu asco em tia Rita - aquilo era testado em animais, mesmo havendo outras maneiras! Retorci-me, sem fingir. Porém, naquela mesma tarde, passeando pela fazenda sem botas, apesar da insistência de meu pai, tia Rita foi picada por uma cobra. Papai levou-a rapidamente ao hospital; fiquei desesperada. Não podia perdê-la! Ela recebeu um soro feito a partir do veneno da cobra. Eu sabia que aquilo era feito em animais, mas não tentei impedir. Tia Rita sobreviveu e disse que jamais me perdoará por isso, mas já vi em sua mesa papeis sobre a regulamentação e o bom trato a cobaias.

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