Desde o começo estava claro que havia requintes de crueldade envolvidos.
Quer dizer, bastava olhar para a gente. "Acordado" nunca foi uma expressão tão forte. Eram olhos tão inchados que chegava a dar dó; aquele céu tão preto. De quem mesmo tinha sido a ideia do ônibus sair seis da manhã?
Não é nem que eu não goste de acordar cedo, mas acordar com céu ainda preto me parece algo muito errado. Detesto.
Sair seis da manhã já seria cruel normalmente, mas era a primeira segunda-feira do horário de verão. Nossos organismos ainda acreditavam que era 5h. E considerando que tinhamos tido que acordar bem antes disso...
Era tão cedo que tecnicamente era tarde ainda. E nem muito tarde, não. Já tive noites bem mais longas.
E mesmo assim, estávamos todos muito empolgados. De cara inchada e tudo. Coisa de bixo mesmo; nossa primeira semana da engenharia mecânica, nossa primeira visita. À Embraer! Ah, dormir é para fracos mesmo; vamos lá ver os aviõezinhos!
Tinhamos achado que a maioria das pessoas ia perder a hora e que o ônibus ia atrasar, mas acaba que saiu pontualmente e quase lotado. E São José nunca foi tão perto, porque a maioria de nós dormiu a viagem inteira.
E foi tudo muito bom, e correu tudo muito bem, e realmente parecia que ia mesmo ser um sucesso absoluto e o pessoal da organização devia estar verdadeiramente orgulhoso, até acontecer.
Vale dizer que já estávamos meio atrasados, mas ninguém estava com muita pressa mesmo. Estávamos alimentados e felizes e voltando para Campinas. Dormindo, claro. Eu pelo menos estava; eu e os amigos mais próximos. Acordamos com o estrondo. E eu, que estava na janela, tive uma visão bem privilegiada da coisa.
O ônibus parou. O motorista, um tipo bem de novela com aquela combinação de barriga e bigode que só poderia vir acompanhada de um nome composto, desceu. Olhou para o ônibus. Levantou os cotovelos à altura do nariz, mãos abertas, sobrancelhas pulando do rosto. Virou de costa, deu uns dez passos e sentou na valeta no canto da estrada, rosto afundado nas mãos.
Preciso dizer?
Fodeu.
Deu uns segundos e os primeiros alunos começaram a descer para ver o que tinha acontecido; forjando aquela cara de quem sabe o que estava vendo.
Forjando mal.
Um amigo meu ri:
- Quer ouvir uma piada? Tinham 40 alunos de engenharia mecânica em um ônibus no meio da estrada. O que aconteceu?
- 40 bixos - respondeu a namorada dele.
E a verdade é que dava no mesmo se fossemos 40 alunos de letras.
Pouco a pouco foi descendo todo mundo. Tinha pedaço de ônibus pela estrada, óleo inundando o chão. Teorias surgiram várias. Pelo menos ninguém disse que tinha sido a rebimboca da parafuseta. Eu acho.
Alguém identificou o carter.
Alguém começou a bater foto. Estendendo o braço; camêra para cima. "Eu e o ônibus quebrado".
Outros alguéns começaram a bater papo. O responsável pela organização disse para a gente relaxar, que estava vindo outro ônibus de Campinas buscar a gente. Estávamos a quase duas horas de Campinas, então...
Enfim.
Um cara achou uma bolinha jogada por lá; logo surgiu uma rodinha. Diversão...!
Alguém conseguiu chutar a bolinha para o meio de uma enorme poça d´água.
...
Olha-se prum lado, pro outro, pra cima... Pra primeira gota, pras todas seguintes que fizeram a gente ter que se enfurnar no ônibus...
Jogamos stop as horas seguintes.
Mas no final chegamos vivos.
(4 horas depois do esperado)
Fim.
Obs: Lá de onde eu venho, a gente chama bixo de calouro, mesmo; e stop é adedônia. Para os conterrâneos entenderem e os não conterrâneos acharem curioso...
Quer dizer, bastava olhar para a gente. "Acordado" nunca foi uma expressão tão forte. Eram olhos tão inchados que chegava a dar dó; aquele céu tão preto. De quem mesmo tinha sido a ideia do ônibus sair seis da manhã?
Não é nem que eu não goste de acordar cedo, mas acordar com céu ainda preto me parece algo muito errado. Detesto.
Sair seis da manhã já seria cruel normalmente, mas era a primeira segunda-feira do horário de verão. Nossos organismos ainda acreditavam que era 5h. E considerando que tinhamos tido que acordar bem antes disso...
Era tão cedo que tecnicamente era tarde ainda. E nem muito tarde, não. Já tive noites bem mais longas.
E mesmo assim, estávamos todos muito empolgados. De cara inchada e tudo. Coisa de bixo mesmo; nossa primeira semana da engenharia mecânica, nossa primeira visita. À Embraer! Ah, dormir é para fracos mesmo; vamos lá ver os aviõezinhos!
Tinhamos achado que a maioria das pessoas ia perder a hora e que o ônibus ia atrasar, mas acaba que saiu pontualmente e quase lotado. E São José nunca foi tão perto, porque a maioria de nós dormiu a viagem inteira.
E foi tudo muito bom, e correu tudo muito bem, e realmente parecia que ia mesmo ser um sucesso absoluto e o pessoal da organização devia estar verdadeiramente orgulhoso, até acontecer.
Vale dizer que já estávamos meio atrasados, mas ninguém estava com muita pressa mesmo. Estávamos alimentados e felizes e voltando para Campinas. Dormindo, claro. Eu pelo menos estava; eu e os amigos mais próximos. Acordamos com o estrondo. E eu, que estava na janela, tive uma visão bem privilegiada da coisa.
O ônibus parou. O motorista, um tipo bem de novela com aquela combinação de barriga e bigode que só poderia vir acompanhada de um nome composto, desceu. Olhou para o ônibus. Levantou os cotovelos à altura do nariz, mãos abertas, sobrancelhas pulando do rosto. Virou de costa, deu uns dez passos e sentou na valeta no canto da estrada, rosto afundado nas mãos.
Preciso dizer?
Fodeu.
Deu uns segundos e os primeiros alunos começaram a descer para ver o que tinha acontecido; forjando aquela cara de quem sabe o que estava vendo.
Forjando mal.
Um amigo meu ri:
- Quer ouvir uma piada? Tinham 40 alunos de engenharia mecânica em um ônibus no meio da estrada. O que aconteceu?
- 40 bixos - respondeu a namorada dele.
E a verdade é que dava no mesmo se fossemos 40 alunos de letras.
Pouco a pouco foi descendo todo mundo. Tinha pedaço de ônibus pela estrada, óleo inundando o chão. Teorias surgiram várias. Pelo menos ninguém disse que tinha sido a rebimboca da parafuseta. Eu acho.
Alguém identificou o carter.
Alguém começou a bater foto. Estendendo o braço; camêra para cima. "Eu e o ônibus quebrado".
Outros alguéns começaram a bater papo. O responsável pela organização disse para a gente relaxar, que estava vindo outro ônibus de Campinas buscar a gente. Estávamos a quase duas horas de Campinas, então...
Enfim.
Um cara achou uma bolinha jogada por lá; logo surgiu uma rodinha. Diversão...!
Alguém conseguiu chutar a bolinha para o meio de uma enorme poça d´água.
...
Olha-se prum lado, pro outro, pra cima... Pra primeira gota, pras todas seguintes que fizeram a gente ter que se enfurnar no ônibus...
Jogamos stop as horas seguintes.
Mas no final chegamos vivos.
(4 horas depois do esperado)
Fim.
Obs: Lá de onde eu venho, a gente chama bixo de calouro, mesmo; e stop é adedônia. Para os conterrâneos entenderem e os não conterrâneos acharem curioso...
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